A greve dos trabalhadores da Caixa Econômica Federal, que começou no dia 10, suscita preocupações no segmento imobiliário devido a atrasos no fechamento de novos financiamentos e na liberação de recursos para obras em andamento. As empresas e os clientes vinculados ao programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) estão entre os mais impactados.
Especialistas do setor ressaltam que greves são esperadas anualmente, mas a atual paralisação tem se mostrado especialmente intensa. A duração desta greve é um fator relevante, mas o papel central do banco no sistema imobiliário é o principal motivo da preocupação, segundo Cyro Naufel, diretor de relações com investidores da Lopes.
A Caixa detém quase todos os contratos do MCMV, que tem apresentado crescimento nos últimos anos. No primeiro semestre deste ano, as vendas do programa corresponderam a 50% do total vendido em todo o país, conforme dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic). Em São Paulo, o MCMV representou 69% das unidades comercializadas nos últimos 12 meses até julho, conforme informações do Secovi-SP.
“O impacto será ainda maior caso a greve se prolongue, já que o mercado cresceu consideravelmente”, afirma Naufel. “A demanda por parte do setor privado é muito mais significativa em relação a essa instituição financeira.”
Um empresário do setor, que preferiu não se identificar, mencionou uma situação de “caos” entre pequenas e médias incorporadoras que atuam no MCMV devido aos atrasos nos pagamentos referentes à evolução das obras. O banco libera recursos conforme o progresso das construções e realiza medições mensais, que estão sendo afetadas pela greve.
“As empresas de capital aberto conseguem lidar com isso financeiramente, mas as pequenas e médias estão enfrentando dificuldades devido aos altos juros”, acrescenta.
Impacto além do Minha Casa, Minha Vida
Incorporadoras fora do MCMV também podem sofrer consequências, pois a Caixa é o principal agente financeiro de diversas modalidades de crédito imobiliário. Até julho deste ano, o banco foi responsável por 44% das contratações de crédito imobiliário com recursos da poupança destinados à aquisição de imóveis e por 59% das operações voltadas para financiar a construção de empreendimentos.
Os corretores também enfrentam desafios. Naufel explica que a comissão dos corretores é paga pelas incorporadoras após a transferência do financiamento do cliente para a Caixa. Sem esse processo concluído, os profissionais responsáveis pela mediação da venda não recebem sua remuneração.
Na quinta-feira (24), o Tribunal Superior do Trabalho (TST) irá deliberar sobre o pedido de dissídio coletivo apresentado pelo banco após este acionar a Justiça.
“A Caixa é o banco especialista em habitação”, declara Garófalo. “Nos outros bancos, essa área é apenas um braço adicional; na Caixa, entretanto, o foco principal é realmente a habitação, abrangendo não apenas a habitação social.”
Posicionamento da Caixa
Em resposta ao portal Valor, a Caixa divulgou um comunicado após a publicação da reportagem: “A Caixa informa que as contratações de crédito imobiliário continuam disponíveis durante o período de greve, com apoio da jornada digital habitacional e da rede de correspondentes parceiros. A maioria das etapas envolvidas na contratação habitacional pode ser realizada digitalmente e remotamente. Através do fluxo nato-digital – um processo digitalizado – disponível na rede parceira, compradores e vendedores têm a possibilidade de enviar documentos e assinar formulários e contratos eletronicamente utilizando certificações digitais reconhecidas. Situações específicas são analisadas com base nas características e na fase de cada operação.”
A instituição também afirma estar constantemente implementando ações para garantir os serviços aos trabalhadores e manter o atendimento aos clientes. Para isso, foram adotadas medidas contingenciais visando minimizar os impactos tanto para clientes individuais quanto para construtoras e incorporadoras com projetos financiados pela Caixa.
