No Brasil, os preços dos alimentos no domicílio registraram um aumento em setembro, após dois meses de queda, impactando a inflação medida pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15).
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados na última sexta-feira (25). O retorno dos preços da alimentação a um patamar positivo ocorre em um momento estratégico, próximo ao primeiro turno das eleições, que será realizado em 4 de outubro.
O aumento foi de 0,38% neste mês, após as reduções observadas em julho e agosto (-1,14% e -0,97%, respectivamente). Esse crescimento superou as expectativas de analistas do setor financeiro.
André Braz, economista do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), ressalta que a aceleração dos preços dos alimentos em setembro é preocupante, pois indica a diminuição de um fator que estava contribuindo para conter a inflação.
O IPCA-15 registrou aumentos significativos em itens essenciais da alimentação brasileira. O IBGE mencionou casos como o do tomate, que subiu 20,76%, além do arroz com alta de 2,39% e das carnes que avançaram 1,3%.
Braz observa que o aumento do preço do tomate está associado a uma pressão de oferta “claramente identificável”. Ele explica que o frio atrasou a maturação do produto, reduzindo sua disponibilidade no mercado e elevando os preços tanto no atacado quanto no varejo.
Por outro lado, o economista acredita que há chances de estabilização futura. Essa expectativa se baseia nas recentes quedas dos preços do tomate no atacado.
Em relação ao arroz, Braz destaca que é necessário ter cautela devido à previsão de uma safra menor. A oferta limitada também está por trás do cenário atual das carnes, onde a menor quantidade de animais prontos para o abate mantém os preços elevados.
No entanto, alguns produtos apresentaram queda no IPCA-15 deste mês. O feijão-carioca caiu 6,33%, enquanto a cebola teve redução de 4,41% e o café moído ficou com menos 1,36%.
Para o último trimestre do ano, Braz alerta para um risco maior de aumento nos preços dos alimentos. Ele menciona movimentos distintos entre os produtos e aponta que fatores sazonais desfavoráveis e riscos climáticos associados ao fenômeno El Niño podem dificultar uma recuperação na oferta.
No grupo alimentação e bebidas — incluindo tanto produtos consumidos em casa quanto refeições fora — houve um incremento de 0,4% em setembro. Este resultado se deu após as quedas observadas em julho (-0,66%) e agosto (-0,57%).
A alimentação fora do lar também continuou sua trajetória ascendente. Os custos para comer fora aumentaram 0,44% em setembro após um aumento anterior de 0,42% em agosto.
A questão do custo de vida tem sido utilizada na campanha presidencial pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como estratégia para criticar o presidente Lula (PT), que busca seu quarto mandato.
A campanha de Lula tenta enfatizar os resultados positivos da economia desde o início de 2023, incluindo dados sobre emprego e renda e medidas como o reajuste do salário mínimo acima da inflação.
No acumulado deste ano até setembro, a inflação da alimentação no domicílio foi de 4,08% segundo o IPCA-15. Em comparação ao mesmo período de 2022, quando se registrou uma alta superior a dois dígitos (11,82%), nota-se uma melhora significativa.
Naquela época, a elevação dos preços dos alimentos era vista como um dos principais desafios enfrentados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante sua campanha eleitoral. O pai de Flávio foi derrotado por Lula nas eleições passadas.
Ainda que a inflação tenha desacelerado recentemente, especialistas afirmam que o nível atual dos preços continua preocupando parte da população. Isso se deve ao fato de que mesmo com um crescimento menor ainda há impactos sobre custos já elevados para as famílias.
O índice oficial da inflação brasileira é medido pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), também calculado pelo IBGE. Este índice serve como referência para as decisões sobre política monetária do Banco Central.
O IPCA-15 é divulgado antes do IPCA completo e fornece uma indicação sobre as tendências futuras dos preços. Uma diferença importante entre ambos é o período considerado para coleta dos dados.
A coleta para o IPCA-15 abrange a segunda metade do mês anterior até a primeira metade do mês corrente; no caso específico de setembro foi entre 15 de agosto e 15 de setembro.
Enquanto isso, o levantamento referente ao IPCA se concentra exclusivamente no mês atual. Portanto, os dados relativos a setembro ainda não estão finalizados; o IBGE divulgará essas informações completas em 9 de outubro.
