Desafios da Dependência Externa
Os agricultores brasileiros se deparam com uma nova realidade ao iniciarem a safra 2026/27. O aumento de 12,8% nos preços dos fertilizantes importados em agosto, conforme dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), é um fator que complica ainda mais a situação. Ao mesmo tempo, as importações desse insumo caíram 43,2% em relação ao ano anterior, totalizando 2,97 milhões de toneladas. Essa pressão nos custos de produção é agravada por problemas logísticos e pela elevada dependência externa, que representa cerca de 85% da demanda no país, segundo o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária).
“O preço do fertilizante que chega ao Brasil não é definido apenas pelo custo do produto em seu país de origem. Há uma rede internacional complexa por trás dessa transação”, explica Eudes Silveira, gerente de desenvolvimento de negócios e produtos internacionais. “Fatores como câmbio, disponibilidade de transporte, custos de frete marítimo e variáveis relacionadas à rota e prazos de entrega influenciam o preço final. Quando esses elementos se tornam mais caros ou instáveis, isso reflete no custo do insumo.”
Pressão Logística em Alta
A tendência recente não é isolada. Os preços médios já haviam subido 18,2% em maio em comparação ao ano passado; em junho, houve um aumento de 26,2%; e julho registrou uma alta de 18,8%. Dados da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) indicam que entre janeiro e abril de 2026 as importações de fertilizantes nitrogenados e fosfatados diminuíram em volume em 4%, porém os gastos totais aumentaram em 16%.
A procedência dos fertilizantes acentua a vulnerabilidade do setor. Em 2025, a Rússia foi responsável por 25,9% das importações brasileiras desse insumo, seguida pela China com 18,8% e países do Oriente Médio representando 14,5%. Para os nitrogenados especificamente, cerca de 22% das importações vieram dessa região. “No comércio exterior, não se trata apenas do custo por tonelada na origem. Mudanças nas rotas ou problemas em regiões fornecedoras podem impactar tanto o prazo quanto o custo. Para um insumo que está intimamente ligado ao calendário agrícola, a previsibilidade logística possui um valor econômico significativo”, ressalta Silveira.
Iniciativas Nacionais para Mitigação
A magnitude da safra torna esses impactos ainda mais significativos. A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) prevê uma produção total de grãos de 366,6 milhões de toneladas para a safra 2026/27, representando um crescimento de 1,4% em relação ao ciclo anterior sobre uma área cultivada estimada em 85,3 milhões de hectares. O desafio central reside não no risco de escassez desse insumo, mas sim nos custos associados à sua internalização que podem afetar as margens lucrativas e o planejamento dos produtores.
Na visão de Silveira, diversificar as fontes é essencial: “Quanto maior for a dependência em poucos mercados fornecedores, maior será a vulnerabilidade a eventos que estão fora do controle dos importadores brasileiros. Desenvolver alternativas nas origens dos insumos e planejar compras com antecedência pode não eliminar totalmente a volatilidade no mercado internacional mas certamente minimiza a exposição a decisões tomadas às pressas.”
O governo brasileiro busca enfrentar esses desafios através do Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), lançado em setembro com o objetivo de aumentar a produção interna e diminuir a dependência externa. Contudo, enquanto essa estratégia se desenvolve ao longo do tempo, fatores como câmbio, custos logísticos e questões geopolíticas continuam moldando os preços dos insumos que chegam aos campos agrícolas.
