A abertura do 11º Congresso Brasileiro de Agricultura de Precisão e Digital (ConBAP) e da 17ª International Conference on Precision Agriculture (ICPA), que ocorreu nesta segunda-feira (13) no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre, trouxe à tona os avanços tecnológicos do agronegócio brasileiro, assim como os desafios relacionados à conversão de dados em decisões práticas para o manejo agrícola.
Márcio Albuquerque, presidente da Associação Brasileira de Agricultura de Precisão e Digital (AsBraAP), destacou a importância histórica da realização conjunta desses eventos. Ele enfatizou o simbolismo de sediar pela primeira vez fora da América do Norte a principal conferência global na área. Além disso, Albuquerque lembrou que a AsBraAP celebrará uma década de existência em 2026, e que o congresso foi idealizado como um espaço para troca de experiências e demonstração dos avanços tecnológicos do setor.
O presidente da International Society of Precision Agriculture (ISPA), Steve Phillips, também comentou sobre a relevância dessa mudança de continente, que representa um passo importante na internacionalização da organização. Ele mencionou que a ISPA atualizou sua estrutura de governança e ampliou sua representatividade mundial, com diretores distribuídos por todos os continentes e um aumento de 25% no número de membros ativos. “Este progresso é um reflexo do comprometimento da comunidade científica e da excelência das contribuições técnicas para o desenvolvimento da agricultura de precisão”, declarou.
Durante sua apresentação, Albuquerque ofereceu uma visão geral sobre a agricultura no Brasil, recordando que até a década de 1960 o país era dependente da importação de alimentos. A evolução na pesquisa e na tecnologia, especialmente com a criação da Embrapa, possibilitou ao Brasil se tornar uma potência agrícola. Ele também destacou o Rio Grande do Sul como um estado pioneiro na adoção de práticas agrícolas precisas e ressaltou a necessidade de colaboração entre produtores, pesquisadores e empresas para fortalecer o modelo digital na produção.
O professor José Paulo Molin, da Esalq/USP, trouxe à discussão dados sobre a utilização de tecnologias precisas na América Latina. No Brasil, constatou-se que 86% dos agricultores entrevistados utilizam ferramentas digitais para aplicação de calcário; contudo, esse percentual diminui quando se trata do uso de agroquímicos. Molin fez um alerta sobre a dependência dos fertilizantes importados e defendeu uma utilização mais eficiente desses insumos. “Estamos muito dependentes dos fertilizantes. Este é o momento certo para utilizá-los com sabedoria”, afirmou.
O pesquisador também abordou o desafio enfrentado pelas pequenas propriedades rurais no país, que totalizam aproximadamente 4 milhões. Segundo ele, muitas dessas propriedades ainda tratam o solo uniformemente, sem levar em consideração as variações na produtividade. “Os dados estão sendo coletados, mas não estão sendo utilizados corretamente. Precisamos discutir precisão agora”, enfatizou.
A programação continuou com um painel sobre o cenário europeu apresentado pelo pesquisador italiano Davide Cammarano, especialista em agroecologia e modelagem agrícola. Em seguida, Simerjeet Virk, da Auburn University, discutiu o contexto norte-americano abordando a importância da extensão rural e dos sistemas agrícolas mecanizados na promoção da agricultura digital.
O primeiro dia do ConBAP e da ICPA estabeleceu Porto Alegre como um polo relevante para debates sobre inovação e sustentabilidade no agronegócio, reunindo especialistas internacionais para discutir as perspectivas futuras da agricultura de precisão e o uso eficiente dos dados no campo.

