Santa Rosa: seis décadas da semente que transformou a soja no Brasil

Algumas narrativas têm início em uma necessidade e culminam em grandeza. A história da cultivar Santa Rosa ilustra perfeitamente esse conceito. Lançada em 1966, durante a primeira Fenasoja, realizada em Santa Rosa, essa variedade foi a primeira soja com pertinência comercial adaptada ao Brasil — um marco que simbolizou a transição do país de testes experimentais para a construção de uma base produtiva sólida.

Entretanto, essa jornada tem raízes mais profundas. Em 1924, Albert Lehenbauer, um pastor dos Estados Unidos, trouxe a soja para o noroeste do Rio Grande do Sul. Em uma área carente de mercado, renda e alimento, o grão não chegou como um produto comercial, mas sim como uma solução de sobrevivência, sendo cultivado para consumo familiar e alimentação de suínos — que era a base econômica das comunidades locais. Diante da falta de indústria, infraestrutura logística e garantias financeiras, a soja emergiu como uma alternativa viável em meio a desafios significativos.

Esse contexto inicial contribuiu para o desenvolvimento de um sistema produtivo. A criação de suínos aumentou a demanda por rações e, em 1941, Santa Rosa inaugurou a primeira indústria processadora de soja do Brasil. O que antes era apenas uma forma de sobrevivência começou a se transformar em uma atividade econômica significativa.

Porém, até os anos 1960, o Brasil ainda dependia de variedades estrangeiras que não se adaptavam bem às condições climáticas locais. A mudança começou no Instituto Agronômico de Campinas, onde os pesquisadores Leonard F. Williams e Shiro Miyasaka realizaram cruzamentos em 1953 que resultaram na cultivar Santa Rosa. Testada no Rio Grande do Sul, essa linhagem encontrou no campo a adaptação necessária que os cientistas buscavam.

O técnico Juarez Guterres teve o papel fundamental de identificar esse potencial e liderar os experimentos em Santa Rosa. O resultado foi uma cultivar mais alta e robusta, com alta produtividade e capaz de se adaptar ao ambiente brasileiro. Assim, seu lançamento em 1966 não foi apenas uma introdução de nova variedade; representou também uma mudança crucial da dependência externa para o desenvolvimento de uma agricultura local.

A partir desse ponto, a soja começou sua expansão pelo Sul do Brasil e avançou para o Centro-Oeste, guiada por produtores que perceberam as oportunidades oferecidas pelo grão. A trajetória da família Daltrozo exemplifica esse movimento sob uma perspectiva humana; décadas após sua migração para novas terras, seu legado permanece vivo no campo.

“A família preservou o espírito resiliente que levou a cultivar Santa Rosa à região e honrou aqueles que abriram novas fronteiras agrícolas, permitindo ao Brasil se tornar o maior produtor mundial de soja”, comenta Lucas Daltrozo, produtor localizado em Primavera do Leste (MT).

Mais do que simplesmente ocupar novas áreas agrícolas, a cultivar Santa Rosa estabeleceu as bases genéticas da soja brasileira. Tornou-se referência essencial para os avanços futuros no melhoramento da cultura. Criada em 1975, a Embrapa ampliou essas inovações ao desenvolver variedades adaptadas para diferentes regiões do país e consolidar a soja como um cultivo nacional significativo.

“A Santa Rosa é fundamental para o crescimento da soja enquanto cultura nacional”, afirma Mônica Zavaglia, pesquisadora especializada na área. “A conexão entre a cultivar Santa Rosa e o atual panorama do agronegócio brasileiro é clara e direta.”

Os números evidenciam essa transformação impressionante: enquanto em 1960 o Brasil produzia aproximadamente 206 mil toneladas de soja, as projeções apontam que na safra 2025/26 esse número deve ultrapassar 179 milhões de toneladas. A produtividade quadruplicou nesse período e o complexo da soja passou a representar cerca de 6% do PIB nacional.

Sessenta anos após seu lançamento inicial, embora a cultivar Santa Rosa não esteja mais presente nas lavouras modernas como antes, seu legado persiste em todas elas. Sua influência está imersa no código genético das variedades contemporâneas e na estrutura produtiva que posiciona o Brasil estrategicamente no comércio global.

No cerne dessa transformação está Santa Rosa — o local que apostou na soja antes mesmo de qualquer outro lugar no Brasil.
“A Santa Rosa simboliza isso tudo. Ela nasceu aqui, se desenvolveu aqui e foi daqui que o Brasil aprendeu a cultivar o grão que atualmente alimenta o mundo”, conclui Marcos Servat, presidente da Fenasoja.

A soja que teve sua origem como ração nas pequenas propriedades agrícolas transformou-se no ativo preponderante do agronegócio brasileiro.
E após sessenta anos desde seu surgimento, ainda leva no nome sua terra natal: Santa Rosa.

By Portal de Canoas