A Expochurrasco, realizada em Porto Alegre, se destacou como um evento que transcendeu a simples celebração da gastronomia. Este encontro evidenciou de forma clara como o mercado se comporta quando a qualidade, a oferta e a experiência do consumidor estão perfeitamente alinhadas. Em apenas uma hora, 240 quilos de carne de búfalo foram consumidos rapidamente, um sinal inequívoco de aceitação.
No Brasil, há anos a carne de búfalo é rotulada como uma “alternativa” à carne bovina, sendo vista como uma opção ao tradicional. No entanto, essa classificação se mostra falha quando confrontada com o critério mais decisivo: o consumo real. Quando apresentada sem restrições, com um preparo adequado e uma narrativa convincente, a resposta do público é imediata e positiva.
A Associação Gaúcha de Criadores de Búfalos e a Associação Brasileira de Criadores de Búfalos realizaram um trabalho acertado ao levar o produto diretamente ao consumidor final. “Neste contato com o público, conseguimos desmistificar preconceitos sobre uma carne saudável, sustentável e saborosa”, disse Desireé Möller. Sua declaração resume um desafio histórico: comunicar efetivamente as qualidades de um produto que já possui competitividade técnica no mercado.
O principal entrave para a carne de búfalo no Brasil não reside na sua qualidade, mas sim na percepção do consumidor.
A origem dos búfalos, que vêm de uma propriedade localizada em Butiá (RS), reflete uma tendência crescente entre os consumidores contemporâneos: a busca por informações sobre a procedência dos alimentos. Além disso, essa proteína apresenta características objetivas — menor teor de colesterol, maciez e bom marmoreio — que a coloca em posição favorável em um mercado cada vez mais preocupado com saúde e diferenciação.
Entretanto, o evento também revelou um descompasso clássico entre oferta e demanda. A procura por carne de búfalo já demonstra vigor em eventos específicos, mas a oferta continua limitada e muitas vezes desconectada de estratégias comerciais mais ousadas. Essa disparidade pode ser vista tanto como um problema quanto como uma oportunidade.
O processo de preparo da carne, que envolve mais de 20 horas sob fogo controlado, destaca outro aspecto frequentemente esquecido: a experiência do consumidor é fundamental para o futuro do produto. “Era uma carcaça com ótimo marmoreio e mais de 20 horas de fogo”, detalhou Everton Kunzler. “Nosso objetivo é preservar o ponto e a textura”, completou Tutty Ramos. Esses não são meros detalhes operacionais; são elementos cruciais para transformar uma degustação inicial em um hábito contínuo.
As palavras do produtor Luiz Paulo de Moura Nunes são reveladoras: “A fila mostra essa aceitação.” Em mercados desenvolvidos, filas não representam apenas espera — são indicadores valiosos. É nesse espaço que se mede o tempo desejado pelo consumidor e seu real interesse pela compra.
Portanto, o que ocorreu na Expochurrasco não foi apenas um evento isolado; foi um indicativo claro. A carne de búfalo começa a se afastar da margem e busca consistentemente seu lugar no centro do mercado proteico. Embora ainda não tenha alcançado uma mudança definitiva, já não é mais considerada uma mera promessa.
Os consumidores já demonstraram sua resposta positiva. Agora resta saber se toda a cadeia produtiva está preparada para acompanhar essa demanda crescente.

