Classe C será a chave para as eleições, destaca especialista

A classe C, com seu significativo número de eleitores, será crucial na definição do segundo turno das eleições presidenciais, e compreender suas necessidades pode ser decisivo em uma disputa tão acirrada. Essa é a análise de Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e autor de “Brasil da Maioria: 25 Anos de Classe C”.

Em uma entrevista recente, Meirelles destacou que a fase inicial da eleição careceu de debates que abordassem as questões cotidianas dos cidadãos, o que dificultou o envolvimento do eleitor comum com as candidaturas.

Ele ressalta que tanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto Flávio Bolsonaro (PL) enfrentam o desafio de reconhecer que os cerca de 107 milhões de brasileiros da classe C são “pragmáticos”. Este grupo busca um Estado que ofereça educação e saúde de qualidade, mas que também respeite suas escolhas pessoais.

De acordo com Meirelles, a falta de atenção a essas questões práticas foi um erro fundamental nas campanhas do primeiro turno. “Não havia uma comunicação direcionada a essa classe C. O foco estava em Daniel Vorcaro e no STF, enquanto as preocupações reais dessa população foram negligenciadas”, afirma.

A alta taxa de abstenção nas eleições de 2026, que atingiu 33,4 milhões de eleitores, e a crescente rejeição aos principais candidatos corroboram sua análise. Para o segundo turno, as campanhas tentaram ajustar suas estratégias para atrair os indecisos. Lula ampliou seu “pacote de bondades” com propostas para microempreendedores individuais (MEIs), enquanto Flávio revisou sua posição e apoiou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que extinguiu a escala 6×1.

“Ambos se voltaram para propostas que ressoam com as demandas diárias dessas pessoas”, observa o especialista. “A discussão sobre como lidar com a violência também emergiu; não importa se é uma solução da esquerda ou da direita, o importante é que o debate está sendo realizado”, acrescenta.

Para Meirelles, captar e interpretar essas expectativas deve ser prioridade nas campanhas nesta fase final. Ele enfatiza: “É fundamental perceber que a classe C não se alinha estritamente à esquerda ou à direita; ela busca soluções práticas.” Segundo ele, esse grupo deseja um Estado expansivo quando se trata de educação e saúde, mas espera menos interferência em suas atividades empresariais.

Com quase metade da população brasileira incluída nesta categoria estudada por Meirelles, é evidente sua diversidade; no entanto, algumas tendências podem ser observadas. No primeiro turno das eleições, ele nota que homens — sentindo-se menos protagonistas no lar — e jovens — que veem as políticas sociais como algo normal — optaram majoritariamente por Flávio. Em contrapartida, mulheres — usuárias frequentes dos benefícios sociais e serviços públicos — e idosos — que saíram da pobreza durante administrações petistas — tendem a favorecer Lula.

Meirelles estuda essa classe desde seu crescimento na década de 1990 sob o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e acredita que Lula demorou a perceber que o tempo é o ativo mais valioso da classe C. Embora os indicadores econômicos tenham mostrado melhora, esses avanços não se refletiram na realidade diária da população.

Colaborador do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável do governo federal, Meirelles identifica essa desconexão como um dos principais fatores pelo qual esse segmento eleitoral se afastou do PT após duas décadas de fidelidade.

“É complicado medir a sensação econômica através apenas dos números macroeconômicos”, reflete ele. Embora mencione dados positivos como a drástica redução do desemprego e o aumento real do salário mínimo anual — conquistas ausentes durante a gestão Jair Bolsonaro — Meirelles argumenta que esse aumento na renda não resultou em melhorias significativas para os cidadãos. “As pessoas não voltaram a consumir aquilo que deixaram para trás”, afirma.

Os dois principais obstáculos ao consumo atualmente são identificados por Meirelles como as apostas online — recentemente proibidas — e as taxas de juros elevadas, às quais “o próprio presidente Lula contribuiu”. Ele observa: “As apostas retiraram bilhões da economia; era um dinheiro invisível para muitos. Porém, isso acabou comprometendo o orçamento familiar no final do mês.”

By Portal de Canoas