Após um 2022 caracterizado por uma baixa participação eleitoral, que inclui tanto a abstenção quanto os votos nulos ou em branco, as eleições deste ano levantam preocupações entre analistas sobre um possível aumento no número de eleitores que optem por não votar. Essa situação é monitorada atentamente pelas campanhas na última semana que antecede o primeiro turno. O ambiente atual é sustentado por dados que revelam uma rejeição superior a 50% em relação aos principais candidatos, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), além da percepção de que a campanha, marcada por diversos escândalos, não conseguiu mobilizar efetivamente as bases e deixou os eleitores cansados.
A expectativa de um resultado apertado, decidido por uma margem reduzida de votos, leva os candidatos dos dois lados a convocar os eleitores para comparecerem às urnas no dia 4. Historicamente significativo para Lula, especialmente entre os eleitores mais humildes, o não comparecimento agora apresenta diversas facetas e suas consequências são imprevisíveis, conforme apontam especialistas. Dados recentes mostram que Flávio tem menos apelo entre os eleitores de direita do que Lula possui entre seus apoiadores da esquerda.
Um aspecto que ganha cada vez mais relevância é a idade dos eleitores, especialmente com as transformações na estrutura etária do Brasil. Aproximadamente um quarto do eleitorado tem mais de 60 anos e, nas últimas pesquisas da Quaest e Datafolha, Lula se destaca entre esse grupo ao ter sua maior vantagem sobre Flávio. Com o voto sendo facultativo para aqueles acima de 70 anos — faixa etária em que a abstenção não requer justificativa — o presidente tem incentivado os idosos a irem às urnas nos últimos dias.
— Precisamos convencer as pessoas com 70 anos ou mais a participar da votação. Levante-se e vá votar, o Brasil precisa de você — solicitou durante uma carreata em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, na última quinta-feira.
Além das suas declarações nas ruas, o petista gravou uma mensagem com a influenciadora Ademara, que conta com cerca de 700 mil seguidores no Instagram, reiterando o apelo para que os mais velhos compareçam às eleições. O vídeo ressalta que a abstenção entre cidadãos com mais de 70 anos atingiu quase 60% nas eleições de 2022. Um outro movimento realizado pelo governo foi a determinação de que o voto na eleição servirá como comprovação de vida para aposentados e pensionistas do INSS.
Mudança como estratégia
Flávio Bolsonaro busca convencer os eleitores a saírem de casa utilizando como argumento sua proposta de mudança, conforme afirmam membros da sua campanha. Esse discurso foi ensaiado em uma entrevista à TV Globo em agosto e será intensificado nesta última semana antes das eleições para explorar a insatisfação com o governo atual.
— Mais de 32 milhões de pessoas se abstiveram de votar nas eleições passadas, decididas por apenas cerca de 2 milhões de votos. É fundamental que você participe se deseja ver mudanças no seu país — apelou o senador durante a entrevista.
A tentativa de posicionar-se como agente da mudança está alinhada com uma tendência global observada pós-pandemia, onde vitórias da oposição têm sido frequentes. Lula já se beneficiou desse cenário em 2022 ao ser o primeiro presidente desde a emenda constitucional de 1997 a não conseguir reeleição. Flávio visa incentivar o desejo por alternância política e converter isso em votos.
O renomado cientista político Jairo Nicolau, professor da FGV-CPDOC e especialista em estudos eleitorais, observa que as pesquisas atuais não oferecem certeza sobre um aumento na abstenção ou nos votos nulos e em branco. No entanto, pela sua análise da campanha até aqui, ele espera essa possibilidade.
— Intuitivamente, suponho que haverá um aumento tanto na abstenção quanto nos votos brancos e nulos. Posso estar enganado — alerta Nicolau. — É evidente que se as eleições forem muito disputadas no segundo turno, eleitores ainda desmotivados podem ser persuadidos a ir às urnas.
Indicadores
Historicamente ligado à ideia de prejuízo para o PT devido à abstenção, conforme aponta Rennó, esse padrão vem mudando nas últimas eleições e torna incerta a identificação de quem será mais impactado neste ciclo eleitoral. Essa transformação ocorreu após o surgimento do bolsonarismo e alterou significativamente o perfil do eleitor brasileiro.
Dados da Quaest fazem Felipe Nunes, diretor do instituto, considerar que Flávio pode enfrentar dificuldades devido ao não voto: apenas metade dos eleitores autodenominados conservadores sem ligação com Bolsonaro acredita que seu filho é a melhor opção disponível para esta disputa. Em contrapartida, 79% dos eleitores à esquerda sem vínculo com Lula veem o ex-presidente como a escolha ideal.
Sob a perspectiva do fundador do instituto Ideia e colunista do O Globo Mauricio Moura, há vários fatores indicativos para uma participação eleitoral aquém do esperado.
— Estamos diante de um ciclo eleitoral marcado por baixo entusiasmo. Os dados que corroboram essa percepção incluem altas taxas de rejeição das principais candidaturas e um elevado índice de indecisos quando questionados espontaneamente sobre intenção de voto — lista Moura. — Essa combinação tende a resultar em um aumento na abstenção bem como nos votos brancos e nulos.
