“Neste momento, o agronegócio não precisa de mais essa situação”, afirma José Roberto Mendonça de Barros, um dos sócios de uma consultoria. É desafiador encontrar qualquer setor econômico que deseje a eclosão de um novo conflito, como a guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã há pouco mais de um mês. Especialistas, incluindo Mendonça de Barros, ressaltam que este conflito se desenrola em um período particularmente complicado para o setor agropecuário.
Embora o agronegócio brasileiro não esteja enfrentando uma crise propriamente dita — responsável por cerca de 25% do PIB nacional —, as perspectivas para este ano indicam uma desaceleração na taxa de crescimento. No ano passado, a agropecuária teve um aumento significativo de 11,7% em comparação a 2024, conforme dados do IBGE. A produção permanece alta, mas os desafios se acumulam.
Segundo Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, “alguns segmentos da cadeia estão indo muito bem, como no caso das proteínas, café e açúcar”. Entretanto, ele observa que o setor enfrenta grandes ajustes e que a guerra no Irã representa mais um obstáculo à recuperação desejada.
Nos últimos anos, diversos elos da cadeia produtiva agrícola foram severamente impactados. Os produtores lidaram com aumentos nos custos operacionais, superproduções que reduziram lucros e uma disparada nas taxas de juros resultando em um recorde no número de recuperações judiciais no setor. A crise energética provocada pela guerra no Irã pode acentuar ainda mais as dificuldades para aqueles que já enfrentam sérios problemas financeiros.
O agronegócio brasileiro foi fundamental para sustentar o PIB durante a pandemia e parecia ter entrado em uma fase promissora no início desta década. Em 2020, houve um crescimento impressionante na produção em relação ao ano anterior: 24,3%, segundo pesquisa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP e da CNA.
Nos anos subsequentes, fatores como câmbio favorável às exportações, implementação de novas tecnologias e disponibilidade financeira global prometiam uma expansão ainda maior para o setor agrícola. Inclusive, novos investidores começaram a adentrar esse mercado: o setor financeiro buscou diversificar os investimentos além do tradicional Plano Safra do Banco do Brasil através da criação da Nova Lei do Agro em 2020.
Dentre as inovações trazidas por essa legislação estava a possibilidade de constituir Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), que são isentos de Imposto de Renda. Outros mecanismos também propiciaram um crescimento sem precedentes dos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs).
Como resultado desse cenário positivo, o patrimônio líquido dos fiagros saltou de R$ 10 bilhões em 2022 para R$ 38 bilhões com dados atualizados até 2026, envolvendo cerca de 750 mil investidores ativos na B3. Já os CRAs apresentaram um aumento significativo em seu estoque: passaram de R$ 65 bilhões em 2021 para estimados R$ 180 bilhões no ano seguinte.
Além disso, fundos de private equity começaram a direcionar investimentos na consolidação das cadeias varejistas e atacadistas pelo país. Essa movimentação transformou pequenos comércios que vendiam fertilizantes nas cidades interioranas em grandes redes comerciais.
A proposta era aumentar a eficiência logística e ampliar as negociações com grandes fornecedores de insumos e fertilizantes ao mesmo tempo que ofereciam melhores condições financeiras aos produtores rurais.
No entanto, a invasão russa à Ucrânia em 2022 trouxe mudanças drásticas: o custo do cloreto de potássio – essencial para culturas como soja e milho – subiu abruptamente de US$ 250 para US$ 1 mil por tonelada.
Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro, destaca que tanto a pandemia quanto a guerra na Ucrânia evidenciaram a fragilidade da dependência internacional no segmento agrícola relacionado aos fertilizantes.
Apesar do aumento nos custos dos insumos devido ao conflito global e antes que as cadeias internacionais fossem reestruturadas, o Brasil alcançou sua maior safra histórica com mais de 300 milhões de toneladas colhidas em 2023 — predominantemente milho e soja. Contudo, essa boa notícia se transformou em prejuízo: os agricultores enfrentaram contas elevadas enquanto recebiam preços menores por suas colheitas durante um ano marcado por restrições financeiras.
No ano seguinte (2024), embora os custos com fertilizantes tenham diminuído entre 25% e 30% comparado ao ano anterior, os preços recebidos pelos produtores caíram ainda mais rapidamente devido ao destaque das safras recordes nos EUA e Argentina. Além disso, enchentes no Rio Grande do Sul resultaram na perda total das colheitas prontas para serem colhidas pelos agricultores locais numa situação já complicada por dívidas acumuladas com altos juros.

