Durante o segundo turno da eleição entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o mercado financeiro parece inclinado a apoiar o candidato de direita, em grande parte devido à expectativa de ajustes fiscais e diminuição nas taxas de juros. No entanto, representantes do setor industrial expressam tanto oportunidades quanto desafios em ambos os cenários, levantando preocupações sobre políticas industriais e relações comerciais globais.
Executivos do setor afirmam que uma eventual vitória de Flávio poderia resultar em uma aproximação maior com os Estados Unidos, além de promover privatizações e incentivos ao empresariado. Em contrapartida, existe um temor de que programas estratégicos possam ser descontinuados e que as relações comerciais com a China enfrentem tensões.
A analista Julia Thomson, da Eurasia, acredita que a expectativa de uma gestão fiscal mais sólida sob Flávio pode acelerar a redução das taxas de juros, o que beneficiaria a indústria. Contudo, uma abertura econômica mais abrangente pode impactar negativamente setores como o de máquinas, automóveis, produtos químicos e biocombustíveis, especialmente no caso do etanol.
* Incentivos e políticas industriais
Nos setores considerados estratégicos, como a mineração de terras raras, há receios entre executivos sobre possíveis interrupções em iniciativas de financiamento e incentivos fiscais decorrentes de uma mudança no governo. Outros observadores acreditam que um mandato sob Flávio poderia acelerar investimentos e simplificar exigências.
No que diz respeito ao setor de biocombustíveis, há apreensão quanto a uma possível revisão da política Renovabio, destinada a incentivar combustíveis renováveis. Apesar das críticas sobre a diminuição das metas de descarbonização durante o governo Lula, representantes do setor consideram que uma troca na administração poderia aumentar as incertezas.
Thomson ressalta que ambos os candidatos reconhecem a relevância dos setores estratégicos, mas apresentam abordagens distintas: Lula foca em subsídios e crédito facilitado, enquanto Flávio propõe cortes tributários e maior flexibilidade regulatória.
O setor automotivo aparece como um dos mais instáveis. A expectativa é que um governo alinhado à direita ofereça menos subsídios, seguindo uma linha econômica similar à do ex-ministro Paulo Guedes. A indústria química também se mostra apreensiva com possíveis mudanças, recordando tentativas anteriores de eliminar o Regime Especial da Indústria Química (Reiq) durante a gestão Bolsonaro.
Comércio internacional
A política externa surge como outra questão crítica. Profissionais da indústria acreditam que Flávio poderia aprimorar as relações comerciais com os Estados Unidos e expandir negociações internacionais; enquanto Lula tende a manter uma dinâmica mais difícil com Washington.
No entanto, a aproximação com os EUA levanta preocupações sobre possíveis repercussões nas relações com a China, principal parceiro comercial brasileiro. O professor Marcos Jank do Insper argumenta pela necessidade de um equilíbrio nas relações com ambas as potências: os Estados Unidos são fornecedores cruciais de tecnologia, enquanto a China representa um mercado vital para as exportações brasileiras.
Jank espera que Flávio consiga restabelecer diálogos com os americanos sem comprometer as relações com os chineses. Para Thomson, o forte apoio do agronegócio à base bolsonarista deve prevenir uma ruptura drástica com Pequim, embora tensões possam surgir e o BRICS possa perder influência na política internacional.
Infraestrutura e finanças públicas
Quanto à infraestrutura, é esperado que as concessões continuem independentemente do resultado eleitoral. Contudo, um governo liderado por Flávio poderia reiniciar privatizações e acelerar projetos como a hidrovia do Tapajós e Ferrogrão. Algumas partes do setor temem uma possível redução nos investimentos públicos e mudanças na atuação do BNDES.
A política fiscal é considerada um dos principais pontos positivos para Flávio. Jank menciona que cortes nos gastos poderiam demonstrar responsabilidade fiscal e criar espaço para baixar os juros.
No entanto, Thomson observa que as propostas ainda precisam ser mais detalhadas. Embora haja promessas de corte orçamentário na ordem de R$ 200 bilhões, há ceticismo no mercado sobre se esse valor poderá ser alcançado. Mesmo assim, permanece uma expectativa otimista caso ocorra uma diminuição nas despesas fiscais , ainda que em menor proporção.
Expectativas
No segmento imobiliário, empresários estão animados com a possibilidade da vitória da direita e esperam pela continuidade do programa Minha Casa, Minha Vida. O setor acredita que suas demandas estão alinhadas às prioridades da equipe de Flávio e vislumbra sinais positivos para a manutenção desse programa habitacional.
De maneira geral, o setor produtivo enxerga oportunidades em um possível governo de Flávio Bolsonaro no campo econômico; no entanto, persiste incerteza quanto à continuidade dos incentivos industriais, investimentos públicos e à estabilidade das relações comerciais internacionais.
