O governo federal projeta que as receitas adicionais em 2026, decorrentes dos impactos da guerra no Oriente Médio, podem atingir R$ 67,5 bilhões. Por outro lado, os gastos e renúncias já contabilizam R$ 32,4 bilhões, um valor que foi comprometido por ações implementadas até agosto e que deve crescer com novas iniciativas anunciadas em setembro. Essas informações foram apresentadas na terça-feira (29) pelo secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal. O aumento no preço do petróleo no mercado internacional é um fator que deve contribuir para a elevação da arrecadação.
Do montante de R$ 32,4 bilhões, R$ 24,4 bilhões referem-se a créditos extraordinários já disponibilizados, incluindo subvenções para combustíveis. Os restantes R$ 8 bilhões são provenientes de renúncias fiscais resultantes de desonerações realizadas no início do ano.
Ainda não estão contabilizados os R$ 7 bilhões referentes a novas medidas anunciadas em setembro, como a desoneração do etanol e da gasolina e uma nova subvenção destinada ao diesel. Com essas novas ações, o impacto total deverá girar em torno de R$ 40 bilhões, conforme detalhado pelo ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, na semana passada.
Entre os R$ 24,4 bilhões disponíveis em créditos extraordinários devido à guerra, até agosto foram efetivamente pagos R$ 7,8 bilhões. Embora haja pagamentos adicionais previstos para setembro, os dados ainda estão em fase de fechamento, de acordo com Leal.
As receitas extras relacionadas ao conflito são estimadas em R$ 67,5 bilhões para 2026, levando em conta a discrepância entre o que estava previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) e as projeções atualizadas no último relatório bimestral. Desses valores, R$ 46,5 bilhões provêm da venda de petróleo e seus royalties e participações; enquanto R$ 21 bilhões são oriundos do imposto sobre exportação.
É importante notar que esse cálculo não inclui possíveis efeitos sobre os dividendos da Petrobras. Segundo Leal, parte desse impacto só deverá ser percebida em 2027 uma vez que os resultados financeiros da empresa durante o segundo semestre de 2026 — o período mais afetado pelo conflito — ainda serão avaliados e poderão influenciar os dividendos pagos no ano seguinte. Em 2026, por exemplo, uma fração dos dividendos recebidos pela União corresponderá aos lucros obtidos pela estatal em 2025.
Os dados foram apresentados na divulgação dos resultados do Tesouro Nacional referentes ao mês de agosto. Nesse período, o governo central (composto pelo Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social) registrou um déficit primário de R$ 13,585 bilhões. Conforme explicado por Leal, houve uma leve melhora nessa trajetória após o pagamento de precatórios e o resultado está “bem alinhado” às metas fiscais estabelecidas para 2026. No acumulado entre janeiro e agosto deste ano, o déficit totalizou R$ 94,869 bilhões.
A meta para o resultado primário neste ano é alcançar um superávit de R$ 34,3 bilhões com um intervalo de tolerância de até 0,25 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB), permitindo até mesmo um déficit zero no ano.
No mesmo mês do ano anterior (agosto de 2025), o déficit havia sido registrado em R$ 15,540 bilhões e no acumulado até aquele ponto era de R$ 85,888 bilhões. Nos últimos doze meses finalizados em agosto deste ano, o saldo negativo totalizou R$ 68,7 bilhões ou equivalente a 0,53% do PIB.
No último relatório bimestral sobre a reavaliação do Orçamento, foi projetado que o governo encerrará o exercício fiscal com um déficit primário de aproximadamente R$ 13,6 bilhões quando considerados os abatimentos legais. Sem esses descontos aplicados a essa soma projetada resulta em um déficit real de cerca de R$ 80,9 bilhões — este sendo o valor que realmente afeta a dívida pública. Quanto maior for esse déficit previsto maior será a tendência à alta da dívida.
Durante uma coletiva à imprensa, Leal comentou que as despesas discricionárias (que podem ser cortadas conforme necessidade) estão mostrando sinais de estabilização. Em agosto houve uma redução significativa de 28% ou cerca de R$ 5,6 bilhões se comparado ao mesmo mês do ano passado após um aumento nos primeiros meses deste ano devido à antecipação do pagamento das emendas parlamentares num ano eleitoral. Contudo as despesas acumuladas até agora ainda apresentam um crescimento anual de aproximadamente 31% comparando-se ao mesmo período de 2025.
As despesas totais do governo central atingiram a marca de 19,18% do PIB nos últimos doze meses. De acordo com Leal essa porcentagem tende a voltar para pouco abaixo dos 19% do PIB principalmente porque as medidas implementadas para amenizar os efeitos da guerra têm caráter temporário e não devem ser repetidas nos anos seguintes.
Os benefícios previdenciários mostraram um aumento anual de 3% em agosto e uma elevação acumulada até agora no ano foi registrada como sendo de cerca de 3% comparando-se ao mesmo período anterior. Os números não indicam sinais significativos de pressão mesmo com a normalização das filas no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), segundo análise feita pelo economista Fábio Serrano do BTG.
Tiago Sbardelotto economista da XP acredita que o modesto crescimento nas despesas relacionadas aos benefícios previdenciários pode ser atribuído ao alto índice de indeferimentos das solicitações. Isso pode levar a custos maiores mais adiante segundo ele. Apesar das dificuldades financeiras enfrentadas pelo governo central apresentando mais um déficit Sbardelotto nota uma leve melhora nos resultados financeiros durante agosto.
