Brasil atinge marca histórica na liberação de pesticidas, enquanto aumentam as proibições e cancelamentos

 

Em 2025, o Brasil registrou um total de 503 novos pesticidas aprovados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), estabelecendo um recorde histórico. Com a continuidade desse ritmo em 2026, o país se afirma como líder global na autorização de defensivos agrícolas. Contudo, esse cenário é acompanhado pelo aumento no número de desistências, suspensões e cancelamentos de produtos, evidenciando uma tensão entre a necessidade de produtividade e a segurança ambiental.

Desde 2019, quando foram autorizados 474 produtos, o Brasil tem quebrado recordes consecutivos. Conforme dados da FAO, o país representa aproximadamente 20% do consumo mundial de agrotóxicos, o que enfatiza a importância desse assunto tanto para o agronegócio quanto para a saúde pública. O Ibama reportou em 2024 a comercialização de 826 mil toneladas de pesticidas, com o glifosato destacando-se ao contabilizar 231,9 mil toneladas. Mato Grosso foi o estado que mais consumiu, aplicando acima de 205 mil toneladas.

Apesar da celeridade nas aprovações, instituições como Anvisa e Ibama têm intensificado as avaliações de risco. Em 2025, várias moléculas foram suspensas ou canceladas devido ao seu potencial nocivo à saúde humana ou ao meio ambiente. “Existe uma contradição: enquanto as aprovações ocorrem com rapidez, as suspensões também aumentam. Isso demonstra que o filtro regulatório está atuando efetivamente, porém gera insegurança para os produtores”, comenta João Pedro Fernandes, pesquisador da Embrapa.

A incerteza é uma preocupação entre os agricultores. Carlos Schneider, um produtor gaúcho de Cruz Alta (RS), expressa: “Investimos em certas moléculas e elas são suspensas repentinamente. Isso resulta em custos adicionais e insegurança.” Em contrapartida, especialistas em saúde sustentam que tais suspensões são essenciais. Ana Paula Ribeiro, toxicologista, alerta: “O Brasil não deve ser considerado um destino para substâncias banidas em outras nações.”

No cenário internacional, a União Europeia aprovou apenas 50 novos pesticidas em 2025, um número significativamente inferior ao brasileiro. O bloco europeu endureceu suas normas de importação ao exigir rastreabilidade e limites mais restritivos para resíduos químicos. Exportadores brasileiros estão preocupados com a possibilidade de perder espaço no mercado caso não haja alinhamento nos padrões regulatórios. Marcelo Lima, engenheiro agrônomo, adverte: “Sem convergência regulatória, estamos suscetíveis a barreiras comerciais.”

Um estudo realizado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) revela que para cada aumento de R$10 por hectare nos gastos com pesticidas, há um incremento de R$7,71 na produção bruta por hectare; no entanto, isso também resulta em um aumento de 13% nos casos de intoxicação. O setor movimenta trilhões anualmente e é crucial para manter o Brasil como líder mundial na exportação de soja e um dos principais players em milho e algodão. Especialistas apontam três áreas fundamentais para o futuro: expandir o uso de bioinsumos, promover maior transparência nas regulamentações e investir em formação técnica para uso responsável dos pesticidas. Embora o recorde nas aprovações demonstre a robustez do agronegócio no Brasil, o crescente número de suspensões e cancelamentos evidencia que os riscos à saúde e ao meio ambiente não podem ser ignorados. O desafio reside em encontrar um equilíbrio entre produtividade e sustentabilidade para assegurar competitividade sem comprometer a credibilidade internacional.

By Portal de Canoas