A participação do economista e ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, na Fenasoja 2026, em Santa Rosa, transcendeu o formato convencional de uma palestra empresarial. O evento se transformou em uma abrangente discussão sobre geopolítica, as mudanças na economia global e como essas transformações afetam o Brasil e seu setor agropecuário.
Cerca de 670 pessoas compareceram ao “Almoço de Ideias”, organizado pela ACISAP (Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agronegócios de Santa Rosa), sob a presidência do empresário Cássio Feltes. A presença de Guedes foi articulada em conjunto pela Prefeitura de Santa Rosa, ACISAP, pela feira e pelo gabinete do deputado federal Osmar Terra.
Integrando a celebração dos 60 anos da Fenasoja, o evento evidenciou uma mudança notável na abordagem da feira. Além de ser um espaço para exibição de máquinas e inovações do agronegócio, a Fenasoja agora inclui discussões sobre economia global, ambiente institucional e as dinâmicas geopolíticas — um movimento que visa posicionar Santa Rosa como um centro estratégico voltado para o agronegócio brasileiro.
A apresentação teve aproximadamente duas horas de duração e logo no início destacou-se pela dinâmica proposta por Guedes. Para garantir a total atenção do público, o ex-ministro impôs restrições quanto ao uso de celulares e registros fotográficos durante sua fala. Gravações eram permitidas, mas a intenção era minimizar distrações e redirecionar o foco para o conteúdo apresentado.
Esse ambiente criado contrastou fortemente com os eventos corporativos contemporâneos, frequentemente caracterizados pela superexposição digital. Sem telas ou registros visíveis, os participantes mantiveram a concentração em uma apresentação densa, estruturada quase como uma aula sobre os eventos históricos que moldaram a economia atual.
No início da sua exposição, Guedes explorou didaticamente os principais marcos geopolíticos desde a Primeira Guerra Mundial. Ele abordou a reconfiguração das potências após os grandes conflitos, a Guerra Fria, a ascensão econômica da China e as mudanças no sistema monetário internacional que redefiniram as relações econômicas nas últimas décadas.
Ao traçar conexões entre guerras, juros, moedas e disputas comerciais, o economista buscou ilustrar como os ciclos históricos alteram os centros de poder econômico e a influência das nações. Em diversos momentos, ele relacionou eventos passados às tensões atuais envolvendo Estados Unidos, China, Europa e mercados emergentes.
A profundidade da análise aumentou ao discutir o efeito da reestruturação das cadeias produtivas globais, as disputas tecnológicas e a nova corrida por segurança alimentar e energética. Dentro desse contexto, o agronegócio brasileiro surgiu como um componente vital em uma economia mundial cada vez mais afetada por instabilidades geopolíticas e necessidades de abastecimento.
<pNa segunda parte do discurso, Guedes adotou um tom mais assertivo ao conectar diretamente as dinâmicas internacionais à situação brasileira. Ele enfatizou a importância da previsibilidade econômica, estabilidade institucional e criação de um ambiente favorável para investimentos produtivos como essenciais para um crescimento sustentável.
De acordo com sua análise, embora o Brasil possua significativas vantagens estruturais na produção de alimentos, energia e recursos naturais, enfrenta desafios históricos relacionados ao ambiente fiscal, burocracia excessiva, insegurança jurídica e falta de planejamento a longo prazo. Ele destacou que fatores como taxas de juros, confiança nas instituições e credibilidade econômica são cruciais para definir o ritmo do crescimento nacional.
A mensagem teve forte ressonância no Rio Grande do Sul, principalmente em áreas exportadoras como o noroeste gaúcho. Em cadeias fortemente ligadas ao mercado internacional — como soja e proteína animal — flutuações cambiais e condições econômicas globais têm impacto direto nas decisões de investimento nas propriedades rurais.
A presença de Paulo Guedes também simboliza uma transformação no perfil da própria Fenasoja. Nesta edição comemorativa dos 60 anos da feira, ampliou-se a dimensão econômica e política das discussões promovidas, aproximando o setor produtivo dos debates que antes eram exclusivos dos grandes fóruns nacionais.
Ao final do evento ficou claro que a palestra não se restringiu apenas à análise de dados econômicos; foi uma interpretação abrangente das mudanças no poder global e dos desafios enfrentados pelo Brasil em um cenário internacional cada vez mais competitivo e interdependente. Um agradecimento especial à Prefeitura de Santa Rosa, à presidência da Fenasoja 2026 e à ACISAP pela realização deste relevante debate econômico durante a feira.

