Soja, carbono e energia: Santa Rosa inicia debate que transforma o agronegócio
No dia 30 de abril, Santa Rosa se tornará um ponto central para a interseção entre o agronegócio brasileiro e as questões globais de clima e energia. O Fenasoja Soy Summit — Carbono Zero, que ocorrerá no Centro Cívico Cultural, traz à tona discussões que já deixaram de ser meras tendências para se consolidarem como demandas reais do mercado: reduzir as emissões durante a produção, monitorar a pegada de carbono e converter eficiência ambiental em valor econômico.
O evento reunirá líderes dos setores agropecuário, científico e industrial em torno de cinco temas principais — visão internacional, gestão climática, ambiente de negócios, ciência e produção e mercados — para discutir como reposicionar a soja brasileira diante de uma nova realidade de regulamentações mais rigorosas e novas oportunidades comerciais. O foco não está apenas na produtividade; agora, a competitividade é essencial em um cenário que exige rastreabilidade e um compromisso com práticas sustentáveis.
“O Brasil está pronto para essa nova etapa. Temos tecnologia tropical, capacidade produtiva em larga escala e podemos gerar produtos com menor intensidade de carbono do que muitos outros países”, afirma Marcos Eduardo Servat, presidente da Fenasoja 2026. “Este evento simboliza o grão que transformou o Rio Grande do Sul e todo o Brasil — um ícone de desenvolvimento e prosperidade.”
Esse contexto fortalece essa perspectiva. O Brasil se destaca como líder na produção mundial de soja, colhendo mais de 150 milhões de toneladas anualmente e exportando acima de 100 milhões por ciclo. Simultaneamente, cresce a pressão internacional por cadeias produtivas mais sustentáveis, impulsionada por iniciativas como o ajuste do carbono na fronteira europeia e exigências impostas por grandes compradores globais.
Dentro desse contexto, o papel da soja se expande. De simples commodity alimentar, ela passa a atuar também como uma fonte energética. O biodiesel produzido a partir da soja representa uma parte significativa da matriz renovável no Brasil, enquanto novas alternativas, incluindo SAF (combustível sustentável para aviação) e biogás oriundo de resíduos agrícolas, estão se expandindo rapidamente e atraindo investimentos.
A contribuição de Erasmo Battistella se torna fundamental nesta discussão. Em sua apresentação sobre “Soja Além do Grão: Desenvolvimento, Energia e Agregação de Valor”, ele sugere uma mudança na abordagem: o valor da soja não reside apenas em sua exportação, mas na capacidade de gerar energia sustentável, diminuir emissões e criar novas oportunidades dentro da cadeia produtiva.
“O mundo não busca apenas produtos; deseja entender como foram produzidos”, afirma Battistella. “Quem conseguir dominar essa narrativa — utilizando dados precisos, eficiência operacional e tecnologia — terá vantagem nos mercados.”
A complexidade da discussão aumenta à medida que ciência, clima e gestão são incorporados ao debate. A presença de especialistas como Luiz Carlos Molion e Paulo Herrmann amplia as conversas para além do cultivo agrícola, ligando previsibilidade climática aos riscos produtivos e às decisões sobre investimentos. A mensagem é clara: produzir mais não é suficiente; é imperativo produzir melhor e comunicar isso efetivamente ao mercado.
No campo da inovação, empresas como Bayer apresentam soluções focadas em agricultura precisa, genética avançada e manejo sustentável. Ao mesmo tempo, instituições como o Instituto de Estudos Empresariais oferecem uma análise econômica estratégica do setor.
A transição energética dentro do agronegócio também avança além das portas das propriedades rurais. Equipamentos movidos a biocombustíveis estão sendo adotados progressivamente nas operações agrícolas; além disso, a eletrificação gradual dessas atividades e o uso de resíduos para geração energética estão deixando o estágio experimental para integrar os planos produtivos. Essa evolução reposiciona os produtores como protagonistas na agenda climática — não apenas como vítimas dela.
Ao conectar diferentes disciplinas — desde meteorologia até direito, passando por agronomia e finanças — o Soy Summit demonstra que a descarbonização é um desafio sistêmico que requer coordenação efetiva, investimento contínuo e uma visão estratégica clara.
A programação deste encontro antecede a Fenasoja 2023, que espera receber mais de 350 mil visitantes e contar com mais de 600 expositores no Parque de Exposições Alfredo Leandro Carlson. No entanto, antes mesmo do início da feira, já estará claro: a soja brasileira adentra uma nova era — mais integrada ao cenário global, sob maior escrutínio internacional e com amplas oportunidades para assumir uma posição de liderança. (Por Gisele Flores – [email protected])

