Dia do Boi: a nova era da pecuária é pautada pela sanidade animal

Comemorado no dia 24 de abril, o Dia do Boi se transforma em um marco que representa não apenas uma celebração, mas também uma significativa mudança na pecuária brasileira. O Brasil, que possui um rebanho estimado em aproximadamente 238 milhões de bovinos, continua sendo o líder mundial na exportação de carne bovina. No entanto, o setor entra em uma nova etapa em que a mera escala não assegura resultados; a competitividade agora depende do controle sanitário, da gestão de riscos e da eficiência nas propriedades.

A transição é simbolizada pela eliminação gradual da vacinação obrigatória contra a febre aftosa. Avançando em seu status sanitário, o país amplia suas oportunidades em mercados mais exigentes, ao mesmo tempo que impõe aos produtores uma maior responsabilidade no gerenciamento dos riscos envolvidos. A sanidade passa a ser gerida ativamente, refletindo diretamente na produtividade e nas margens de lucro.

Nesse novo contexto, a sanidade ganha uma importância estratégica. “A suspensão da vacinação não elimina os riscos; pelo contrário, requer um manejo mais estruturado e preventivo”, destaca Janaina Giordani, representante da Zoetis. Essa percepção é corroborada por especialistas da Embrapa, que apontam que o controle sanitário é crucial para manter a produtividade em sistemas de criação mais intensivos.

Um dos principais desafios enfrentados pelo setor é o controle de parasitas. De acordo com projeções do segmento, as perdas anuais no Brasil chegam a cerca de R$ 70 bilhões, afetando diretamente fatores como ganho de peso, conversão alimentar e taxas de prenhez. Em um cenário onde as margens estão cada vez mais apertadas, essas perdas tornam-se evidentes e prejudiciais ao resultado financeiro das propriedades.

Estratégias como a vermifugação planejada ganham destaque nesse novo cenário. Protocolos como o 5-8-11 organizam o manejo em momentos críticos — maio, agosto e novembro — demonstrando um impacto positivo na produtividade com ganhos que podem chegar até 20 quilos por animal em sistemas bem administrados. Não se trata apenas de técnica; é também sobre previsibilidade e controle das variáveis críticas na produção.

A transformação vai além das técnicas de manejo; observa-se uma mudança fundamental na lógica da pecuária. O setor brasileiro avança de um modelo reativo para um sistema orientado por dados. Os produtores começam a antecipar riscos ao invés de simplesmente reagir às perdas, integrando aspectos como sanidade, nutrição e genética em uma abordagem gerencial mais sofisticada.

Esse movimento adquire relevância considerando a posição do Brasil no comércio internacional. Em 2025, as exportações do agronegócio brasileiro totalizaram cerca de US$ 169 bilhões, com as carnes representando mais de US$ 30 bilhões — ressaltando a importância central da proteína animal na balança comercial do país. Nesse cenário competitivo, a confiança sanitária não é apenas um diferencial; é uma condição essencial para acessar mercados.

No Rio Grande do Sul, essa dinâmica se reflete em uma pecuária tradicional que busca se reposicionar no mercado global. O estado figura entre os maiores rebanhos bovinos do Brasil e possui forte presença internacional. Em 2025, as exportações gaúchas chegaram a cerca de US$ 15,4 bilhões, com as carnes somando aproximadamente US$ 2,7 bilhões e apresentando crescimento significativo durante o período.

A crescente inserção internacional aumenta as exigências dentro das propriedades rurais. Ao contrário de regiões focadas apenas na escala produtiva, o Rio Grande do Sul tende a competir cada vez mais com base na qualidade, regularidade e padrões sanitários — fatores intimamente relacionados à gestão técnica eficaz.

Como principal exportador mundial de carne bovina, o Brasil precisa garantir sua credibilidade sanitária para manter acessos a mercados estratégicos como China e outros destinos com altos padrões exigidos. Qualquer falha nesse aspecto pode resultar não apenas em perdas produtivas significativas mas também em barreiras comerciais imediatas.

Atender às exigências externas vai além do cumprimento; trata-se também de eficiência econômica. Neste novo cenário, sanidade não representa apenas custo ou discurso — ela se torna uma variável crítica que impacta diretamente a produtividade e as margens dos negócios.

Dessa forma, o Dia do Boi transcende seu caráter comemorativo para expor uma mudança silenciosa nas práticas agrícolas. No Rio Grande do Sul — onde tradição e mercado se encontram — essa transformação torna-se ainda mais evidente: a pecuária futura será menos tolerante às perdas invisíveis e cada vez mais dependente da gestão técnica para permanecer competitiva.

By Portal de Canoas