Gilson Bittencourt, vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, comentou que a diminuição de 9% nos desembolsos do Plano Safra 2025/26 até março, em relação à safra anterior, se deve sobretudo à redução nos financiamentos destinados a médios e grandes produtores, e não a uma suspensão total do crédito rural.
Ele explicou que essa situação está relacionada ao processo de reestruturação financeira no setor agrícola e ao aumento dos custos de crédito em razão da taxa Selic elevada, que atualmente se encontra em 14,75% ao ano. No acumulado entre julho de 2025 e março deste ano, os desembolsos do Plano Safra totalizaram R$ 259,879 bilhões, cifra que representa uma queda em comparação aos R$ 285,689 bilhões disponibilizados no mesmo período da safra anterior.
No entanto, quando as Cédulas de Produto Rural (CPRs) financiadas pelos bancos são incluídas na análise, o total liberado para a agricultura empresarial sobe para R$ 403,981 bilhões, evidenciando um crescimento de 10% em relação ao ciclo anterior. “Ao avaliar o Plano Safra, é fundamental considerar primeiramente o crédito rural específico e as CPRs financiadas. Embora tenha havido uma redução mais acentuada no crédito rural, observamos um aumento no financiamento por meio das CPRs”, destacou Bittencourt.
Ele também informou que a maior queda se concentra nas linhas voltadas para investimento, especialmente aquelas destinadas a médios e grandes produtores, além das operações com taxas livres. “Os produtores estão passando por um processo de reorganização financeira e adiando certos investimentos na tentativa de ajustar seu fluxo de caixa”, acrescentou.
Segundo o executivo, a alta da Selic torna muitos projetos inviáveis economicamente. Além disso, os bancos têm adotado critérios mais rigorosos na concessão de crédito, demandando garantias mais robustas e realizando análises mais profundas da capacidade de pagamento dos solicitantes. Essa cautela pode ter contribuído para o desempenho inferior na liberação de crédito durante a safra 2025/26. “Entretanto, os recursos estão circulando e o crédito continua sendo disponibilizado”, assegurou.
Bittencourt também enfatizou que iniciativas voltadas à renegociação de dívidas podem facilitar novas liberações de financiamento. Ele mencionou a Medida Provisória 1.314, promulgada em setembro de 2025, que possibilita a renegociação das dívidas dos produtores impactados por desastres climáticos como secas ou enchentes. Essa MP permitiu o uso de até R$ 12 bilhões em superávit financeiro e recursos livres dos bancos para quitar ou amortizar débitos rurais.
Conforme Bittencourt revelou, apenas o Banco do Brasil já renegociou R$ 36,5 bilhões utilizando essa medida: R$ 33,2 bilhões em operações com taxas livres e R$ 3,2 bilhões em taxas controladas. Os prazos para postergação das operações podem chegar a nove anos. “Qualquer iniciativa que contribua para melhorar o fluxo de pagamentos favorece novas concessões”, concluiu.

