A alteração nas regras de provisionamento contábil dos bancos, juntamente com o impacto da inadimplência em crescimento no crédito rural, deve tornar o ambiente para a concessão de novos financiamentos ao campo ainda mais restrito em 2026. Apesar de existir a possibilidade de soluções imediatas, como prorrogações e renegociações de dívidas, o processo de recuperação dessas operações é mais demorado nas carteiras dos bancos, que enfrentarão um período de desafios contínuos.
Essa é a análise de Carlos Aguiar, diretor de agronegócios do Santander e especialista no assunto. De acordo com ele, a resolução 4.966/2021 do Banco Central, em vigor desde o início de 2025, causou incertezas no setor financeiro e continuará impactando a disponibilidade de crédito para o agronegócio em 2026.
A nova regulamentação é mais conservadora, requerendo provisões para perdas esperadas em cada financiamento concedido, com critérios mais rigorosos para casos de inadimplência, classificando-os em estágios. Em situações de atraso superior a 90 dias, por exemplo, a provisão pode exceder 50% do valor emprestado, bloqueando novas movimentações financeiras.
E a reversão desse cenário é ainda mais desafiadora. Mesmo após a renegociação da dívida e o reforço das garantias pelo devedor, a redução na provisão bancária só ocorrerá gradualmente, à medida que as parcelas forem quitadas. “No agronegócio, isso implica em pelo menos um ano e meio a dois anos, devido ao calendário de pagamentos semestrais ou anuais”, afirmou Aguiar ao Valor.
“Para reverter essa provisão, será necessário mais tempo do que anteriormente. O obstáculo principal é o longo período de recuperação. O tratamento pode até ser imediato, com uma solução financeira, mas a recuperação é excepcionalmente demorada”, destacou.
Tudo isso culminará em um mercado financeiro mais restritivo em 2026, de acordo com o executivo. Além disso, serão impostas mais exigências em termos de garantias. “A situação mudou”, afirmou.
O ano de 2025 foi desafiador, com parte da carteira do Santander sendo mais impactada, segundo Aguiar, especialmente os produtores de grãos e pecuaristas do Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso.
“A carteira não cresceu em 2024 e não crescerá em 2025. Permanece estável. Estou substituindo os clientes de menor qualidade, pelos quais estou provisionando mais, por clientes melhores e maiores, mas é como enxugar gelo, a carteira não avança”, explicou.
Para 2026, ele prevê outro ano de estabilidade. Os elementos que poderiam impulsionar o crescimento da carteira não estão presentes, como o aumento da rentabilidade no campo, o aumento dos custos de produção ou o crescimento das receitas impulsionado pelos preços.
“Serão necessárias cerca de três safras para a recuperação do mercado. Não será em 2026, talvez em 2027”, avaliou.
Devido ao seu alto nível de alavancagem, o setor emprega diversas estratégias para “limpar a carteira”. Em alguns casos, as garantias são reforçadas e os prazos são estendidos para permitir que o produtor tenha tempo para vender ativos e voltar a uma posição mais estável. Em outras situações, os agricultores têm parcelas vencidas devido a atrasos pontuais nas lavouras e retornam à adimplência em um curto período. No entanto, isso afeta a necessidade de provisão e pressiona o caixa do banco.
O diretor do Santander vê oportunidades para aumentar os financiamentos de curto prazo para esses produtores por meio de tradings e revendedoras de insumos. “Aqueles com garantias reais irão prolongar as operações, e a demanda por capital de curto prazo será suprida por essas empresas. O mercado levará mais dois anos para que as provisões se tornem mais saudáveis e a alavancagem comece a diminuir”, refletiu Aguiar.
O pior cenário, enfatizou o executivo, é para aqueles que enfrentam problemas e evitam conversar com o banco, esperando por uma “solução milagrosa” do governo ou pela opção da recuperação judicial. “Esses produtores são um desastre, e estamos executando as dívidas deles”, concluiu.

