Custo da alimentação supera renda familiar e se torna o principal desafio financeiro

Um estudo recente revela que os gastos com supermercados superam os custos com moradia entre as principais despesas que impactam a renda dos brasileiros; muitos consumidores adotam medidas como cortes de gastos, busca por renda adicional e uso de crédito para equilibrar suas finanças mensais.

A dificuldade crescente enfrentada pelos brasileiros para gerenciar suas finanças pessoais está fortemente ligada às despesas essenciais. Ao contrário de compras de grande porte ou financiamentos longos, são os gastos diários que têm pressionado o orçamento familiar, especialmente no que tange à alimentação e supermercados, que agora estão no foco das preocupações financeiras.

Um levantamento realizado pela Serasa aponta que 59% dos entrevistados identificam supermercado e alimentação como os itens mais pesados em seus orçamentos. Este número ultrapassa o percentual de 40% que considera as despesas com moradia, aluguel ou financiamentos, enquanto 32% mencionam os custos relacionados às contas de casa.

Esses dados refletem uma alteração significativa na estrutura dos gastos familiares. Historicamente associada ao custo da habitação, a pressão financeira agora se deslocou para despesas recorrentes, reduzindo a capacidade das famílias de lidar com imprevistos e dificultando a reserva de dinheiro para consumo pessoal, lazer ou formação de poupança.

Os efeitos dessa situação se manifestam ao longo do mês. Para 41% dos participantes da pesquisa, as semanas três e quatro são as mais desafiadoras financeiramente. Além disso, 13% indicam enfrentar dificuldades durante todo o mês, independentemente do momento em que recebem seus salários ou benefícios.

Um dado alarmante é que 28% dos consumidores afirmam precisar cortar gastos, adiar pagamentos ou lidar com contas não pagas dentro do mês. Isso indica que a pressão sobre o orçamento deixou de ser um evento ocasional e passou a ser uma realidade constante para uma parte significativa da população.

A especialista em educação financeira da Serasa, Aline Vieira, ressalta a importância de entender o fluxo das despesas como um passo crucial para uma boa gestão orçamentária. “Para fazer o dinheiro durar até o fim do mês, é fundamental observar tanto os valores das despesas quanto as datas em que elas devem ser pagas”, explica.

A pesquisa também evidencia as limitações do planejamento financeiro quando a maior parte da renda é consumida por despesas essenciais. “Os dados mostram que o desafio vai além da organização: quando uma grande parte da renda é destinada a gastos essenciais, há menos margem para ajustes”, complementa.

Essa contradição se torna evidente nos hábitos financeiros. Apesar de 75% dos consumidores afirmarem planejar seus gastos antes do início do mês, uma parcela considerável ainda enfrenta dificuldades para equilibrar suas contas.

Diante desse cenário desafiador, muitas famílias adotam estratégias defensivas. Quando percebem que seus recursos podem não ser suficientes até a próxima data de recebimento, 29% optam por reduzir gastos considerados não essenciais e 22% buscam fontes adicionais de renda.

As mudanças financeiras também afetam os hábitos de consumo. Mais de um terço dos entrevistados admite ter diminuído sua participação em atividades recreativas como forma de economizar; 21% recorreram a trabalhos extras ou atividades incomuns para reforçar seu orçamento.

Outro ponto importante é o papel do crédito nesse contexto. O cartão de crédito surge como o principal recurso utilizado para cobrir despesas em períodos de escassez financeira, sendo mencionado por 28% dos participantes. Entretanto, essa mesma fatura lidera a lista das contas deixadas sem pagamento devido à falta de recursos, citada por 25%. “O limite do cartão deve ser encarado como um recurso limitado e não como uma extensão da renda. Antes de utilizá-lo para cobrir qualquer despesa, é crucial avaliar como será feita a quitação da fatura e quanto das próximas receitas já está comprometido com outras parcelas. Caso contrário, a solução temporária pode agravar a situação no mês seguinte”, alerta Aline Vieira.

Ainda que ferramentas digitais tenham avançado significativamente, muitos consumidores continuam utilizando métodos tradicionais para controlar suas finanças. Quase metade dos entrevistados registra suas despesas em cadernos ou anotações manuais, enquanto um número menor utiliza planilhas eletrônicas. “O planejamento deve ser mantido ao longo do mês. Registrar os gastos, monitorar o saldo disponível e revisar as contas futuras ajuda a perceber possíveis dificuldades antes das semanas finais”, acrescenta ela.

Mais do que um simples retrato das finanças individuais, esta pesquisa expõe uma mudança econômica mais ampla. À medida que os custos com alimentação, moradia e necessidades básicas consomem uma proporção crescente da renda familiar, fica cada vez mais reduzido o espaço disponível para consumo discricionário. Isso impacta diretamente nas decisões sobre compras e lazer. Assim, a principal preocupação das famílias muda: deixa-se de lado a expansão do consumo para focar na preservação do poder aquisitivo. O desafio agora vai além de gastar melhor; trata-se também de garantir que a renda seja suficiente para cobrir despesas inevitáveis.

By Portal de Canoas