Suspeitos de fraudes no INSS planejam retorno às atividades ilícitas em vídeo, discutindo estratégias para esconder recursos e evitar apreensão de bens

Imagens capturadas por câmeras de segurança revelam diálogos entre empresários envolvidos no escândalo do INSS, discutindo estratégias para ocultar dinheiro e até planejando um retorno às suas atividades comerciais um mês após serem alvos de operações da Polícia Federal (PF). O Estadão obteve 30 minutos de registros em áudio e vídeo datados de 22 de maio de 2025, provenientes de equipamentos instalados na residência de Anderson Cordeiro Vasconcelos, localizada em Alphaville, Santana de Parnaíba (SP).

Vasconcelos é um dos investigados na Operação Sem Desconto, que apura a possível desvio de R$ 6,2 bilhões da folha de pagamento que beneficia milhões de aposentados. A defesa do empresário declarou não ter conhecimento sobre os vídeos e argumentou que qualquer vazamento das gravações caracteriza crime.

Integrante do grupo conhecido como “golden boys”, Vasconcelos já presidiu quatro associações voltadas para aposentados. As entidades sob sua gestão são acusadas de terem arrecadado mais de R$ 700 milhões por meio de descontos indevidos aplicados a beneficiários do INSS. Durante as investigações, a PF apreendeu 29 veículos avaliados em R$ 28 milhões.

As gravações mostram Vasconcelos, aos 38 anos, recebendo Igor Dias Delecrode, 28 anos, outro membro do grupo, e sua namorada. Os registros foram feitos cerca de um mês após o início da Operação Sem Desconto. Embora os empresários tenham sido alvo de buscas, não chegaram a ser detidos.

“Não quero mais”

No diálogo registrado, Vasconcelos e Delecrode se referem às associações como se fossem empresas. Vasconcelos expressa seu desejo de se desligar: “Então você não ficaria por um tempo? Talvez para guardar algum dinheiro, mas eu sairia logo. E diria: gente, agradeço por tudo, mas a partir de hoje não quero mais nenhum vínculo com a associação. Obrigado, podem continuar recebendo. A minha parte pode ser dividida. Não quero mais”.

Ele menciona que foi questionado por Felipe Macedo Gomes, outro empresário sob investigação, sobre vender sua participação e revelou ter recusado a proposta. “O que estamos vivendo agora não tem preço. Eu preferiria estar no meu apartamento na Itaici, sabendo que ninguém entraria na minha casa ou levaria meu carro”, disse ele.

Delecrode expressa sua frustração com os bloqueios em suas contas bancárias: “Olho para a conta e me pergunto se entrou alguma coisa. Tenho investimentos aplicados, mas não consigo acessar”. Ele complementa: “O dinheiro está lá há seis meses; já pedi o resgate e pretendo transferir tudo para dólar digital”.

Vasconcelos também menciona a necessidade de proteger um apartamento adquirido com outros sócios: “Um imóvel que eu não quero perder é aquele; isso terá um valor imenso no futuro”.

Ele acredita na possibilidade de retomar os negócios: “Tentamos manter uma visão positiva. Nossa percepção sobre o nosso empreendimento é clara: ele voltará. Não sabemos quando nem como será, mas ele voltará”. Em seguida, afirma que fará o possível para “salvar ao máximo meus bens”.

“Golden boys”

Tanto Vasconcelos quanto Delecrode já lideraram a Associação de Amparo ao Aposentado e Pensionista (AASAP). Juntamente com Américo Monte Júnior e Felipe Macedo Gomes, são suspeitos de gerenciar entidades como Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev e Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (Andapp).

A investigação revela que mais de R$ 100 milhões recebidos pelas associações foram desviados para empresas associadas aos empresários e que transferências também foram realizadas para familiares deles.

Monte Júnior enfrentou investigações após um ex-funcionário relatar à polícia que sua filha instruía empregados a falsificar assinaturas de idosos. O inquérito foi encerrado quando o ex-funcionário alegou ter perdido o celular onde estavam as evidências.

Delecrode é considerado o “hacker” do grupo. Segundo informações da Controladoria-Geral da União (CGU), empresas vinculadas a ele teriam participado em fraudes relacionadas à biometria dos aposentados. Documentos pertencentes a idosos chegavam clandestinamente até ele, enquanto um sistema faria com que essas imagens parecessem registros legítimos para assinaturas eletrônicas.

A CGU conseguiu registrar até mesmo Chico Bento, personagem criado por Mauricio de Sousa, como se fosse um aposentado vinculado às entidades investigadas.

Defesa

A defesa composta pelos advogados Rogério Cury, Daniela Cury, Levy Magno e Victor Fanti afirmou desconhecer tanto a existência quanto a autenticidade dos vídeos mencionados.

Ainda segundo eles: “De qualquer forma, todos os bens estão atualmente bloqueados pela Justiça e nossos clientes permanecem à disposição das autoridades sempre que necessário”.

By Portal de Canoas