O senador Flávio Bolsonaro (PL), que não obteve sucesso na disputa presidencial, deixou o Brasil cruzando a fronteira com a Argentina e embarcou em um jato particular rumo a Miami, nos Estados Unidos. A aeronave fez uma parada em Guayaquil, no Equador, antes de continuar sua viagem na manhã desta quarta-feira (28). O ocorrido gerou questionamentos sobre uma possível fuga, especialmente em meio a investigações judiciais que o envolvem tanto no Brasil quanto na Argentina.
O jato é de propriedade da Baires Fly, uma empresa vinculada ao empresário Luis Grande, que está sob investigação da Justiça Federal argentina por supostas práticas de lavagem de dinheiro público proveniente de contratos governamentais irregulares. A companhia possui conexões com o presidente argentino Javier Milei, que utilizou uma aeronave da Baires Fly durante sua primeira viagem internacional aos Estados Unidos em 2023. Naquela ocasião, o voo foi financiado pelo empresário Gerardo Werthein, que posteriormente assumiu o cargo de embaixador argentino em Washington.
Conforme informações veiculadas pelo canal argentino C5N, um assessor político de Milei estava presente no aeroporto de Puerto Iguazú quando Flávio chegou ao local acompanhado de sua esposa, Fernanda, e suas duas filhas. A emissora registrou que o senador cruzou a fronteira em uma van na noite de terça-feira.
Corrupção
A Baires Fly é considerada uma peça-chave em um esquema investigado pela Agência Nacional de Deficiência (ANDIS), órgão argentino anteriormente dirigido por Diego Spagnuolo, ex-advogado pessoal de Milei.
Spagnuolo enfrenta investigações por supostamente liderar um esquema que desviava recursos públicos através de licitações fraudulentas na área da saúde. De acordo com as autoridades argentinas, Sergio Mastropietro, um operador comercial associado à Baires Fly, teria colaborado para encobrir os valores desviados.
As suspeitas indicam que fornecedores contratados pela ANDIS transferiam propinas à empresa justificando pagamentos por voos fretados que nunca ocorreram. Em um único dia, empresas fornecedoras do setor médico teriam enviado mais de 95 milhões de pesos para a Baires Fly.
Com base nas evidências financeiras coletadas, a Justiça determinou o bloqueio dos bens dos envolvidos nas investigações, incluindo Mastropietro, além do confisco das aeronaves da companhia.
PF
A Polícia Federal do Brasil está investigando junto às autoridades argentinas as circunstâncias que cercam a saída de Flávio Bolsonaro do país. O senador é alvo de inquéritos no Supremo Tribunal Federal relacionados a suspeitas de lavagem de dinheiro em plataformas de apostas e financiamento irregular, envolvendo também o advogado Willer Tomaz.
Na madrugada da última terça-feira, o portal argentino Infobae reportou que Flávio entrou na Argentina utilizando seu documento de identidade e estaria em Puerto Iguazú, cidade próxima a Foz do Iguaçu, no Paraná. Inicialmente, havia previsão para um voo às 2h rumo a Miami em um Gulfstream G400 operado pela Baires Fly; no entanto, essa partida foi cancelada.
Segundo informações do jornal La Nación, a aeronave tinha capacidade para quatro passageiros. Já o Clarín destacou que as autoridades aeroportuárias foram informadas sobre problemas enfrentados por um dos passageiros como justificativa para o cancelamento. Além disso, não houve entrega da lista de embarque à Imigração.
Posteriormente, o governo argentino confirmou que Flávio havia ingressado no país às 22h50 na terça-feira pela Ponte Internacional Tancredo Neves. Daí ele seguiu para Guayaquil em um jatinho junto com sua esposa e filhas. O voo partiu do Equador às 6h22 do horário brasileiro com destino final a Miami.
No entanto, antes dessa confirmação oficial, as autoridades argentinas haviam negado ter registros migratórios sobre a entrada do senador e a Polícia Federal brasileira ainda não havia identificado sua saída formal do país.
O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) fez comentários irônicos sobre o caso ao sugerir que Elon Musk enviaria um foguete para resgatar seu irmão; ele já havia defendido anteriormente que Flávio deixasse o Brasil caso fosse derrotado nas eleições.
Aliados
Enquanto não havia confirmação sobre o voo, até mesmo aliados políticos estavam incertos quanto ao paradeiro de Flávio. O prazo estipulado pela Polícia Federal para entrega dos passaportes expirou sem ser cumprido.
A colunista Bela Megale relatou que o senador estava sem comunicação desde as primeiras horas da terça-feira. O coordenador de sua campanha, senador Rogério Marinho, inicialmente afirmou ter conversado com ele e garantido que Flávio estava no Brasil para se recuperar após as eleições; porém mais tarde admitiu a membros do partido desconhecer sua localização real.
A equipe do jornal O Globo visitou na terça-feira a residência do senador localizada no Lago Sul em Brasília. O porteiro confirmou haver pessoas presentes na casa naquele momento mas não soube informar se Flávio estava entre elas. Vale mencionar que um comboio foi avistado deixando seu endereço na noite anterior.
Durante uma reunião com aliados políticos e membros da equipe jurídica como Marinho e outros senadores como Tarcísio de Freitas e Guilherme Derrite, Flávio aparentemente demonstrou descontentamento com a ordem do ministro Alexandre de Moraes referente à retenção do seu passaporte.
