Desafios do arroz gaúcho: clima adverso, endividamento e novas preferências dos consumidores

Alexandre Velho, presidente do IRGA, destaca que o Rio Grande do Sul é responsável por 70% da produção de arroz no Brasil e acredita que a pesquisa, inovação e gestão técnica são fundamentais para manter a competitividade do setor.

O estado do Rio Grande do Sul, que contribui com aproximadamente 70% da produção nacional de arroz e registra uma colheita anual de cerca de 8 milhões de toneladas, inicia uma nova safra sob a influência do fenômeno El Niño. Alexandre Azevedo Velho, presidente do Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA), menciona que embora o cenário atual demande cuidados, as perspectivas continuam otimistas para essa atividade essencial à economia local e à segurança alimentar nacional.

Com mais de quatro décadas de experiência no setor e após nove anos à frente da Federarroz, Velho aponta que os desafios enfrentados vão além dos aspectos produtivos. Questões climáticas, o endividamento dos agricultores e as mudanças nas preferências dos consumidores são algumas das principais preocupações do segmento.

Previsão do El Niño gera apreensão, mas abastecimento está assegurado

A previsão de um El Niño com intensidade variando de forte a muito forte é a principal fonte de preocupação para esta safra. O dirigente relata que esse fenômeno já está causando atrasos no plantio em diversas regiões produtoras do estado.

“Este ano estamos enfrentando prognósticos preocupantes, especialmente devido à previsão de um El Niño forte a muito forte, o que tem gerado atrasos significativos no plantio da safra de arroz”, comentou.

Contudo, os efeitos não são homogêneos em todas as áreas. O arroz gaúcho é cultivado em seis regiões distintas da Metade Sul, cada uma com suas particularidades. Na Fronteira Oeste, que representa cerca de 30% da área plantada, a menor quantidade de chuvas registrada em setembro permitiu um avanço mais acelerado nas atividades agrícolas.

Ainda diante das incertezas climáticas, o IRGA mantém uma visão positiva sobre a safra.

“Embora exista uma expectativa de redução na produtividade devido à menor luminosidade e às questões relacionadas às chuvas, acreditamos que ainda teremos uma boa safra, garantindo um abastecimento tranquilo.”

Pesquisa e tecnologia sustentam a liderança do Rio Grande do Sul

Para mitigar os riscos associados ao clima e aos altos custos da produção irrigada, o IRGA realiza monitoramento meteorológico contínuo e investe em pesquisa genética.

“Essas informações são disponibilizadas semanalmente para os produtores, proporcionando ferramentas que ajudam no planejamento mais eficaz das atividades agrícolas”, explicou Velho.

Além disso, o instituto desenvolve cultivares adaptadas às condições climáticas locais.

“Estamos criando variedades de arroz que se adequam ao nosso clima e oferecem altas produtividades para lidar com os custos elevados da agricultura irrigada na região.”

Duas novas variedades estão sendo apresentadas com foco em produtividade e resistência a pragas e doenças.

“Essas novas cultivares vêm equipadas com tecnologias inovadoras para maximizar a produtividade. Elas têm resistência a doenças, promovendo um uso mais racional dos defensivos agrícolas.”

Aproximadamente 60% da tecnologia aplicada nas lavouras brasileiras de arroz provém de materiais desenvolvidos pelo IRGA ao longo de anos de pesquisa colaborativa com instituições tanto nacionais quanto internacionais.

Gestão técnica foca em resultados concretos

Como primeiro presidente do IRGA oriundo diretamente da liderança setorial após uma longa trajetória em entidades representativas dos produtores, Velho enfatiza que sua administração visa reforçar a atuação técnica da autarquia e expandir os serviços oferecidos aos agricultores.

“Minha origem classista me moldou. Passei pela vice-presidência da Federarroz antes de assumir a presidência por unanimidade. Essa experiência me traz até aqui hoje no IRGA.”

Dentre as prioridades estão a modernização dos processos internos e o desenvolvimento de projetos focados nas necessidades dos arrozeiros.

“Nosso objetivo é criar projetos realmente estruturados para auxiliar os produtores eficazmente.”

Endividamento restringe investimentos

<p Apesar das expectativas animadoras para a produção, a situação financeira dos agricultores continua sendo uma preocupação significativa. Para Velho, o endividamento resulta da conjunção entre taxas de juros elevadas, baixa rentabilidade e perdas causadas por eventos climáticos extremos.

“O produtor não determina o preço dos seus produtos; isso é influenciado pela oferta e demanda além de fatores internacionais diversos que impactam na formação dos preços.”

Ele também recorda que secas seguidas por enchentes nos últimos anos acarretaram danos consideráveis em várias áreas produtivas.

“Vivemos anos marcados por secas seguidas por enchentes severas. Algumas regiões perderam suas colheitas inteiras e até mesmo equipamentos agrícolas. Isso resultou em prejuízos substanciais.”

A sustentabilidade econômica dessa atividade depende da criação de um equilíbrio entre a remuneração justa aos produtores e preços acessíveis ao consumidor final.

“Precisamos encontrar um ponto médio: não podemos ter preços tão baixos que desestimulem os produtores nem tão altos que prejudiquem os consumidores.”

Reconquistando o consumidor

Além das questões econômicas e produtivas enfrentadas pelo setor, há também mudanças nos hábitos alimentares da população brasileira sendo observadas. Segundo Velho, o estilo de vida acelerado junto ao aumento no consumo de refeições rápidas tem diminuído o espaço ocupado pelo arroz nas mesas brasileiras.

“Observamos uma tendência decrescente nos últimos anos devido ao modo como as pessoas estão vivendo atualmente. O consumo de fast-foods tem crescido consideravelmente.”

Para lidar com essa nova realidade, o IRGA retomou campanhas voltadas para valorizar o cereal e incentivar seu consumo.

“Estamos cientes da necessidade urgente de retomar ou ao menos estabilizar essa curva negativa no consumo e trabalhar para aumentar novamente a popularidade desse alimento tão importante.”

Na visão de Alexandre Velho, os desafios enfrentados pela cadeia produtiva do arroz vão além das variáveis climáticas. A sustentabilidade dessa atividade dependerá da habilidade em unir produtividade com pesquisa contínua, rentabilidade e inovação num cenário onde os hábitos alimentares estão mudando rapidamente. Ele acredita que fortalecer a presença do arroz na dieta dos brasileiros é tão crucial quanto melhorar a eficiência nas lavouras. (por Gisele Flores – [email protected])

By Portal de Canoas