Uma família de angolanos encontrou suporte essencial no atendimento humanitário oferecido pela Cáritas e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Em 1994, Delmany Rodrigues e seu irmão foram levados pela mãe, Dona Amélia, ao Rio de Janeiro, enquanto fugiam da intensificação da guerra civil que assolava Angola.
Entretanto, a escolha de deixar seu país natal trouxe uma nova série de desafios. Embora pertencentes à classe média em Angola, os três enfrentaram severas dificuldades financeiras no Brasil. Ao optar por ficar no Rio com seus filhos, Amélia acabou perdendo o emprego que tinha e se viu obrigada a solicitar asilo.
Durante sua infância e adolescência, Delmany e seu irmão receberam diversos tipos de assistência, como cestas básicas, materiais escolares e ajuda para quitar o aluguel. Além disso, conseguiram acesso a medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e participaram de cursos de capacitação profissional. Anos mais tarde, oportunidades de bolsas de estudo surgiram, permitindo que Delmany ingressasse na educação superior. Ele se formou inicialmente em Educação Física por meio de políticas públicas voltadas para estudantes em situação de vulnerabilidade econômica. Em seguida, cursou Fisioterapia com uma bolsa facilitada por uma parceria com o ACNUR.
“Essa ajuda foi um marco em nossas vidas. Hoje sou chamado de doutor, tenho minha própria clínica e me tornei empresário. Mas nada disso teria sido possível sem o apoio que recebi no começo. Esse suporte nos proporcionou alimentos, remédios e acesso à educação. Formou cidadãos”, declarou ele. Contudo, crianças que, como Delmany, atualmente buscam melhores condições em outros países com suas famílias podem não ter as mesmas chances. A Organização das Nações Unidas (ONU) enfrenta uma séria crise financeira e está realizando cortes significativos na equipe e mudanças estruturais para tentar mitigar os problemas.
Nos últimos doze meses, a ONU eliminou mais de 10 mil postos de trabalho e observou uma queda acentuada em seu orçamento geral. Essa situação comprometeu diversos programas e iniciativas humanitárias essenciais. Simultaneamente, a organização enfrenta pressão dos Estados Unidos, que devem bilhões em contribuições obrigatórias.
Os cortes afetaram 21 das 41 agências da ONU em 2025. As entidades mais impactadas incluem o ACNUR, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Essas informações constam em um relatório do Conselho de Chefes Executivos da ONU que analisa a força de trabalho das várias agências envolvidas.
No ano de 2024, o sistema da ONU contava com 130.948 funcionários, número que caiu para 120.176 em 2025 — uma diminuição de 8%. Para o ano seguinte, a organização planejou extinguir mais 2.900 cargos em diversas áreas. Além disso, um programa de demissão voluntária e aposentadorias antecipadas foi implementado.
No final do último ano, António Guterres, secretário-geral da ONU, declarou que a saúde financeira da entidade estava na sua fase mais delicada dos últimos anos. De modo geral, todas as agências da ONU têm enfrentado um declínio nas receitas.
Em 2025, os custos totais para manter toda a estrutura da ONU foram estimados em US$ 64,3 bilhões (equivalente a R$ 322 bilhões), representando uma redução de 2% comparado ao ano anterior. Desses recursos, dois terços foram direcionados para assistência humanitária e iniciativas de desenvolvimento nos países.
A perspectiva para 2026 é ainda mais complicada, especialmente no setor humanitário.
Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral Guterres, relatou que os Estados Unidos reduziram significativamente suas contribuições voluntárias destinadas à assistência humanitária — responsáveis por aproximadamente 45% do orçamento dessa área. Países europeus também realizaram cortes substanciais.
“O resultado foi devastador. Os refugiados passaram a receber menos alimentos e vacinas e tiveram acesso limitado à educação. Diversos programas foram encerrados completamente. Isso resultou na falta do auxílio necessário para aqueles que dele dependiam”, afirmou Dujarric.
