Às vésperas das eleições de 2026, as famílias brasileiras se encontram em uma situação financeira mais complexa, marcada por um aumento no emprego e na renda, mas também por um elevado nível de endividamento. Apesar da recuperação do mercado de trabalho após os impactos da pandemia, a elevação das taxas de juros visando conter a inflação pressionou os orçamentos familiares, o que contribui para o cenário de inadimplência, conforme apontam especialistas.
As campanhas eleitorais dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) têm explorado essas disparidades financeiras. Enquanto Lula enfatiza os recordes em criação de empregos e aumento de renda, Bolsonaro foca no problema do endividamento e no custo elevado de vida.
Em relação às pesquisas de intenção de voto, ambos os candidatos figuram como favoritos antes do primeiro turno marcado para este domingo (4).
Fabio Bentes, economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), observa que, em qualquer parte do mundo, quando a população está empregada e experimenta crescimento no consumo e na qualidade de vida, isso geralmente favorece a reeleição do líder em exercício.
Ainda assim, ele ressalta que o Brasil apresenta uma economia com sinais ambíguos neste domingo, gerando incertezas nas projeções eleitorais. Isso se deve às disparidades entre o mercado de trabalho e a situação do endividamento.
Bentes comenta que “é compreensível que a disputa esteja tão acirrada para o governo federal e em muitos estados”.
Conforme dados da CNC, em agosto deste ano, 82% das famílias enfrentavam dívidas a vencer, cifra que representa o maior índice desde 2010. Essa estatística abrange compromissos financeiros como cartões de crédito, cheque especial, carnês e empréstimos diversos.
Analisando especificamente os meses de agosto ao longo dos anos anteriores a essa eleição presidencial, constatou-se que em 2010 esse percentual era 59,1%, subindo para 63,6% em 2014, 60,7% em 2018 e atingindo 79% em 2022.
No que diz respeito às famílias inadimplentes — aquelas com contas atrasadas — a taxa chegou a 29,9% em agosto passado. O maior índice registrado foi de 30,5% nos meses de setembro e outubro do ano anterior. Em comparação com agosto de 2022, onde o percentual era ligeiramente inferior (29,6%).
Outro dado relevante é referente às famílias que afirmam não conseguir honrar suas contas atrasadas. Em agosto deste ano, essa porcentagem foi registrada em 12,5%, superando os 10,8% observados quatro anos atrás. O pico dessa série histórica foi alcançado em outubro de 2025 (13,2%).
Bentes destaca que “esse cenário ilustra claramente como o aperto monetário (juros elevados) afetou as finanças familiares”. Ele acrescenta que “as famílias não estão se endividando para consumir; elas estão se endividando por outras razões: as dívidas acumuladas dificultam muito o reequilíbrio financeiro”.
A taxa Selic atualmente está fixada em 13,75% ao ano. Esse valor elevado reflete as tentativas do Banco Central para controlar a inflação após estímulos econômicos implementados pelo governo.
A despeito do aumento nas taxas de juros, o mercado laboral continua mostrando resiliência.
Nos três meses até agosto deste ano, a taxa de desemprego no Brasil ficou em apenas 5,3%, marcando o menor nível para esse período desde o início da série histórica registrada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2012.
O total de pessoas ocupadas com trabalho formal ou informal atingiu 103,5 milhões até agosto — um recorde segundo dados do IBGE.
A renda média mensal da população ocupada foi registrada em R$ 3.777 neste trimestre finalizado em agosto — também considerada uma marca histórica.
Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados e colunista da Folha, acredita que o panorama econômico ainda é favorável ao governo Lula na busca pela reeleição.
Nesse contexto, Vale menciona fatores relevantes como a redução do desemprego e sinais recentes indicando uma desaceleração na inflação como pontos positivos.
No entanto, ele aponta que “o aspecto negativo que pode impactar negativamente a popularidade do governo é a questão da inadimplência”, destacando uma combinação preocupante entre altas taxas de juros e uma população endividada exacerbada por fatores adicionais.
A expansão do crédito continua no país; porém ocorre sob crescente pressão sobre os orçamentos familiares e se baseia principalmente em linhas mais caras. Essa análise foi publicada recentemente no Blog do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
“A proporção de famílias endividadas e o comprometimento da renda estão atingindo níveis recordes ou próximos deles; essa pressão é especialmente intensa entre as camadas mais vulneráveis da população”, afirmam os pesquisadores Pedro Avelino, Flávio Ataliba Barreto e João Mário Santos de França.
A técnica em enfermagem Luana Dutra Gomes, de 37 anos, exemplifica bem essa realidade desafiadora. Ela relata estar enfrentando dificuldades financeiras devido a um empréstimo vinculado ao seu salário proveniente do emprego formal quando sofreu um golpe digital no ano passado.
Luana revela que duas operações fraudulentas foram realizadas em seu nome naquele período. Ela não conseguiu administrar as despesas decorrentes dessas situações e busca na Justiça uma solução para seu problema.
“Meu nome ficou sujo. Não consegui pagar meu cartão; estou atolada em dívidas”, desabafa ela. Para sobreviver atualmente vende alguns pertences pessoais e realiza trabalhos temporários enquanto recebe ajuda alimentar. As informações são provenientes do jornal Folha de S.Paulo.
