A diversificação da produção agrícola segue em risco no Rio Grande do Sul. Em mais uma safra, os produtores rurais da chamada Metade Sul do Estado estão enfrentando problemas devido à aplicação de um herbicida hormonal utilizado no preparo do solo em lavouras de soja, mas também empregado no controle de plantas daninhas nas culturas do milho, cana-de-açúcar, trigo, arroz e café.
O 2,4-D, que é autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), é usado antes da época de plantio da oleaginosa para combater a buva (Conyza bonariensis). Considerada a principal invasora das lavouras, ela é capaz de reduzir em até 48% a produtividade de sistemas de produção de trigo, milho e soja no Brasil.
Depois de décadas usando venenos como o glifosato na agricultura, a buva sofreu uma mutação e ficou resistente ao herbicida. Pesquisadores ainda tentaram aumentar a dose do agrotóxico, mas a erva-daninha venceu a disputa com as monoculturas. A solução veio com a utilização do 2,4-D, mas a deriva (produto que não atinge o alvo) do veneno provoca nos vinhedos a queda de flores e frutos e o crescimento descontrolado. O herbicida, quando aplicado de forma incorreta ou em condições atmosféricas inadequadas, é levado pelo vento e pode chegar a dois ou três quilômetros de distância do ponto de origem. Mas os vitivinicultores dizem ter sido atingidos por aplicações a até 20 quilômetros de suas propriedades.
Ameaça à diversificação agrícola
Além das videiras, culturas sensíveis como macieira, oliveira, nogueira-pecã, erva-mate, tomate, melancia e hortaliças estão sendo prejudicadas na Metade Sul pela deriva de defensivos hormonais usados nas lavouras de soja. O problema também atinge o cultivo de tabaco e até mesmo plantações de milho também estão sendo atingidas pelo avanço do herbicida em plantações vizinhas.
Nos últimos anos, as regiões da Campanha e do Centro do Estado, que vinham fazendo uma bem-sucedida diversificação agrícola, contabilizam um prejuízo milionário nessas produções. O herbicida também estaria afetando áreas de mato e campo nativo e dizimando enxames de abelhas, que são fundamentais na polinização das lavouras.
O proprietário da Vinícola Guatambu, de Dom Pedrito, na Campanha Gaúcha, o médico veterinário Valter José Pötter, enfrenta o problema há sete anos e contabiliza um prejuízo de R$ 6 milhões. “No momento, acontece um descontrole da situação, muito grave por parte da sociedade como um todo. E, logo ali, ouviremos falar que na Metade Sul se produzia vinhos, azeites, hortaliças e frutas de qualidade”, afirma o agropecuarista, acrescentando que não consegue colher de 30% a 40% da produção de uvas.
Na propriedade, situada a 40 quilômetros de Dom Pedrito, são cultivadas sete variedades de uvas que sofrem com a contaminação pelo 2,4-D. “Não estou mais investindo em nenhum hectare de uva porque o herbicida mata a parreira nova. Não adianta plantar. É dinheiro posto fora”, reclama o empresário, que foi presidente da Associação dos Vinhos da Campanha. Além das videiras, na Estância Guatambu, fundada em 1958, também são cultivados arroz irrigado, milho irrigado com pivô central, soja, sorgo e sementes forrageiras.
Para Pötter, a única alternativa para a redução da deriva, além das exigências que existem nas Normativas oficiais da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), seria o aviso prévio por parte do produtor que aplicará herbicida hormonal com antecedência mínima de 24 horas à possível aplicação.
O empresário apresentou essa proposição ano passado nas discussões das reformas das Instruções Normativas da Seapi, mas, como os produtores de uva eram minoria, foram derrotados. “Por que não adotar tal medida? Se vai aplicar dentro da legalidade não tem nada a temer de informar ao órgão fiscalizador tal possível aplicação”, provoca.
A aplicação de herbicidas hormonais teria que ser dentro das condições técnicas, climáticas e operacionais corretas, segundo o proprietário da Guatambu. “Ou segue a maneira como que se faz hoje, totalmente irregular, informando depois de aplicar [teria que ser até dez dias após, segundo as normas atualmente existentes], quando querem ou quando convém e muitas vezes nem informam”, critica. “Só o fato de saber que terá de informar a futura aplicação com uso de hormonais já servirá para desestimular”, aposta Pötter.
Erradicação das parreiras
Em Lavras do Sul, município situado no Centro do Estado, o Vinhedo Nossa Senhora da Conceição, implantado há 24 anos, está cercado por lavouras de soja. As videiras das variedades cabernet sauvignon, cabernet franc e merlot, importadas da Itália e África do Sul, ocupam uma área de dez hectares e, em alguns pontos, ficam separadas das plantações da oleaginosa apenas por poucos metros de distância.
“Em uma das áreas, só tem uma estrada separando a plantação de soja do meu vinhedo, que sofre com a deriva do herbicida. Com a chegada da soja – e com ela o 2,4-D – a redução na produtividade é de 70%”, declara o viticultor Jacenir Freitas Soares.
No ano passado, ele plantou dois hectares com as variedades merlot e cabernet sauvignon, em um investimento de R$ 170 mil. Mas viu cerca de 700 mudas secarem e morrerem pela ação do agroquímico. “Investi R$ 170 mil e daí vem um produtor de soja que gasta R$ 500 para plantar soja e aplica herbicida por tudo. Se a situação seguir, assim como está, vou cortar as parreiras e parar de produzir”, garante o agricultor, que entrega a produção para a Vinícola Salton, de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha.
Vitivinicultores cobram a proibição do produto
A nova presidente da Associação dos Vinhos da Campanha Gaúcha, a engenheira química e advogada Rosana Wagner, salienta que o problema não se limita apenas a Metade Sul do Estado. A diretora proprietária da Vinícola Cordilheira de Sant’Ana, de Santana do Livramento, na Fronteira Oeste, sublinha que a deriva dos herbicidas hormonais é uma ameaça onde há cultivo de soja. “Na minha propriedade, em Palomas, até os cinamomos estão amarelos, doentes”, descreve.
Ela diz que a Seapi criou uma série de Instruções Normativas e outros regramentos para uso do herbicida hormonal, comprova as denúncias com exames de laboratório, mas pouco é feito. “Queremos uma resposta efetiva do governo do Estado, porque a situação é muito grave”, declara. “Os produtores estão deixando de denunciar e desistindo da atividade em função das perdas progressivas na produção”, acrescenta.
Criada em 2010, a associação é formada por 18 vinícolas e ao menos 15 delas são consideradas pequenas, pois produzem menos de 500 mil litros de vinho por ano. Muitos

