A indicação do economista Guilherme Mello para uma das duas vagas de diretor do Banco Central (BC) abriu um novo foco de atrito entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad – que fez a indicação a Lula – e o presidente do órgão, Gabriel Galípolo.
Galípolo tem bom relacionamento com Mello, mas, segundo pessoas próximas ao BC, entende que este não é o melhor momento para se passar mensagens ambíguas ao mercado, com a autoridade monetária prestes a iniciar um ciclo de cortes de juros. O efeito entre os investidores foi justamente o contrário: aumento da curva longa de juros.
A decisão final caberá ao presidente Lula, e ainda não se sabe se ele levará em conta a visão de Galípolo e do BC.
Mello tem feito um bom trabalho à frente da Secretaria de Política Econômica (SPE) da Fazenda, com a elaboração de cenários e análises de conjuntura, muitas vezes acertando mais do que o próprio Boletim Focus, mas sob nenhum aspecto parece ser o nome mais indicado para assumir uma diretoria do BC.
Ainda mais se ocupar a cadeira que pertenceu a Diogo Guillen, de Política Econômica – economista de tendência liberal, formado na PUC-Rio e que foi um dos pilares da transição suave entre Roberto Campos Neto e Galípolo.
Mello é da Unicamp, tem sido crítico da condução dos juros, e é um economista com ligações com o Partido dos Trabalhadores (PT). Foi assessor econômico do PT e elaborou a proposta econômica de Lula na eleição de 2022.
Na segunda-feira, o mercado de juros passou a operar com forte alta, com o temor de que a indicação represente uma tentativa do governo de acelerar a queda da Selic, que começará em março.
Na melhor hipótese, Mello fará uma guinada no seu pensamento econômico e manterá o espírito do BC de que com inflação não se brinca. Mas, ainda assim, haverá um custo reputacional para o BC, que levará tempo para ser superado. Na pior, abrirá divergências em cada voto do Comitê de Política Monetária (Copom) – o que terá como consequência o aumento do dólar, dos juros e uma piora das expectativas.
A relação entre Haddad e Galípolo já havia ficado estremecida após a proposta do governo de tributar operações financeiras com IOF, em 2025. Haddad também demorou a manifestar apoio ao BC na crise do Master.
Ter alguém do PT dentro do BC é a pior ideia que Haddad poderia ter tido. Se ele acertou em todas as suas outras indicações, incluindo Galípolo, Paulo Pichetti e Nilton David, cometerá um grande equívoco se levar a ideia adiante.
Para o governo, ficará o risco de ver uma disparada do dólar a poucos meses do início das eleições. Para Haddad, o peso de politizar o BC – o mesmo erro, aliás, que tem sido cometido pelo presidente americano, Donald Trump. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

