Donald Trump aumenta taxas e impacta fortemente o agronegócio do Brasil

O aumento das tarifas dos Estados Unidos contra o Brasil está causando impactos significativos no agronegócio brasileiro, de acordo com executivos e líderes do setor. A maioria dos produtos agrícolas não foi incluída na lista de exceções da tarifa de 50% que entrará em vigor para as cargas comercializadas nos EUA a partir de 6 de agosto. Apenas suco de laranja, castanhas e celulose não serão taxados. Café, pescados e carne bovina serão afetados.

Diante dessa pressão, exportadores já solicitaram apoio do governo por meio de linhas de financiamento. O vice-presidente Geraldo Alckmin adiantou em uma conversa com o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, que o governo está estudando a criação de uma linha de crédito para exportadores.

Em 2024, os EUA foram o destino de US$ 12 bilhões em produtos agropecuários brasileiros, representando 7,3% de todas as exportações do setor e ocupando o terceiro lugar entre os maiores parceiros comerciais do agronegócio brasileiro, atrás da China e da União Europeia (UE). Os principais produtos agrícolas exportados para os EUA foram produtos florestais (US$ 3,7 bilhões), café (US$ 2,1 bilhões), carne (US$ 1,4 bilhão) e sucos (US$ 1,2 bilhão).

“Exceto pelo suco de laranja e castanhas, o agronegócio foi impactado no cerne. É essencial o socorro do governo por meio de linhas de crédito subsidiadas e medidas que atenuem esse momento”, declarou Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca).

O setor de pescados, que exportou US$ 224,3 milhões para os EUA no ano passado, foi um dos primeiros a solicitar financiamento ao governo, de R$ 900 milhões, para capital de giro das empresas. A Abipesca prevê um possível “colapso” no setor sem assistência do Executivo.

De acordo com a associação, as empresas de pescados não possuem “alternativas viáveis de mercado”, uma vez que a cadeia produtiva é fortemente dependente dos Estados Unidos. “Essa situação se agrava em Estados como o Ceará, onde as empresas têm suas operações diretamente ligadas a esse fluxo”, afirmou a associação em comunicado.

“A interrupção dessas exportações poderá desencadear uma onda de pedidos de recuperação judicial, pois as empresas não terão capacidade de cumprir seus compromissos financeiros”, afirmou a entidade, que estima mais de 1 milhão de pescadores afetados.

No setor de carne bovina, a confirmação do aumento das tarifas foi recebida com preocupação. “Os EUA são nosso segundo maior mercado e essa taxa torna inviável a exportação de carne bovina para os Estados Unidos”, disse Perosa aos jornalistas. “Prevemos um impacto de US$ 1 bilhão. Nossa expectativa era exportar 400 mil toneladas (este ano) e não conseguiremos com essa tarifa.”

O presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), Paulo Mustefaga, também expressou sua preocupação. “É extremamente preocupante para o setor produtivo e para a sociedade brasileira essa série de ações que prejudicam toda a economia brasileira”, afirmou. A associação estimou perdas de vendas de carne de US$ 1,3 bilhão em 2025 e de até US$ 3 bilhões no próximo ano.

O presidente Donald Trump ignorou os argumentos apresentados pelo conselho de importadores do país (Mica, em inglês), que mencionou que a proteína brasileira complementa a dos produtores locais e é um componente essencial para a fabricação de hambúrgueres.

A exclusão do café da lista de exceções surpreendeu os analistas do setor, especialmente depois que o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, mencionou o grão como um produto que poderia ser isento de tarifas, visto que o país não o produz.

“Estamos vivenciando um momento de ansiedade, já que um terço do café americano é fornecido pelo Brasil. A questão que surge é qual origem fornecerá café aos EUA e se os americanos ficarão sem o café brasileiro”, disse Marcus Magalhães, fundador da consultoria MM Café.

Para Marcos Matos, diretor do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), a declaração de Lutnick é um incentivo para acelerar as negociações, mesmo que a remoção da tarifa não seja automática para todos os países e dependa das relações bilaterais. “A imposição da taxa, que era um cenário provável, não impede nossas negociações. Em casos anteriores, vários países foram taxados e posteriormente negociaram outros formatos”, explicou.

A sobretaxa também terá um “impacto significativo para o setor sucroalcooleiro do Nordeste”, afirmou Renato Cunha, presidente da Associação dos Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio) e do Sindaçúcar/PE.

As usinas da região se beneficiavam de uma cota de importação dos EUA isenta de tarifa, o que lhes permitia vender açúcar a preços mais altos do que no mercado global. Apesar disso, o volume era pequeno, de 180 mil toneladas por ano, em comparação com uma produção anual de 3,6 milhões de toneladas na região.

Com as tarifas, “podemos continuar operando, mas as exportações passam a ser menos expressivas, dentro de uma quantidade que já não é significativa”, avaliou Cunha.

Os setores estão esperançosos de que seus produtos sejam adicionados à lista de exceções. Os fabricantes de açúcar orgânico estão entre os que almejam essa inclusão. Segundo Leontino Balbo, proprietário da Native, nenhum produtor de açúcar orgânico substituiria imediatamente o Brasil devido à ausência de certificação pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Um dos poucos setores isentos da sobretaxa, a indústria de suco de laranja recebeu a notícia com alívio. De acordo com Ibiapaba Netto, presidente da CitrusBR, que representa as maiores empresas do setor, as indústrias americanas que recebem suco brasileiro para engarrafar demonstraram ao governo americano o impacto das tarifas nos empregos e na economia, e explicaram a necessidade de isenção.

By Portal de Canoas